Neoconcretismo no Brasil: geometria, interatividade e Tropicália

Neoconcretismo no Brasil: geometria, interatividade e Tropicália

Entenda o Neoconcretismo, como ele transformou a arte em experiência interativa e como influenciou o surgimento da Tropicália

O Neoconcretismo foi um movimento brasileiro que transformou a arte geométrica e abstrata, aproximando-a da experiência humana e da participação do público. Sua principal inovação foi tornar a obra incompleta sem a interação do espectador.

Diferente do Concretismo, que priorizava a frieza matemática e a contemplação distante, o Neoconcretismo buscava humanizar a geometria, incorporando movimento, toque e sensorialidade, abrindo caminho para nova expressão artística.

Nesse texto, você vai entender como o Neoconcretismo transformou a arte em experiência interativa, ligando técnica, corpo e cultura popular, e influência sobre o surgimento da Tropicália. Acompanhe Abaixo.

Base técnica do Neoconcretismo

A grande virada do movimento Neoconcretista foi tirar a sacralidade da arte. Diferente do Concretismo, que transformava objetos artísticos em peças matemáticas a serem admiradas, buscava aproximar a obra do ser humano.

Enquanto a escultura concreta era estática, objetiva e visual, a obra neoconcreta propunha uma experiência dinâmica: ela só existe se o público interagir com ela. Em outras palavras, a arte deixou de ser intocável para se tornar manipulável.

Essa mudança não foi apenas conceitual, mas profundamente prática. No Concretismo, predominava a frieza da geometria e da proporção exata, cada forma tinha sua razão, mas estava isolada da experiência humana.

No Neoconcretismo, a geometria não desapareceu, mas foi humanizada. A obra não se completava sozinha: precisava do toque, do movimento, da participação. É como se a arte, antes congelada, ganhasse vida quando interagisse com ela.

A experiência estética deixou de ser passiva e se tornou um diálogo direto entre obra e público. Assim, tornou-se algo passível de transformação pelo olhar e pela ação do espectador, despertando experiências únicas em cada interação.

Lygia Clark, os “Bichos” e a Interatividade

O melhor exemplo dessa redefinição do papel do espectador é a obra de Lygia Clark, especialmente os seus famosos “Bichos”. Diferentes das esculturas tradicionais, esses trabalhos não se destinam apenas à contemplação visual.

Bicho (da série Bichos), 1960, de Lygia Clark, recorte em metal, 10 × 50 × 50 cm.

Na obra, as estruturas metálicas são articuladas, com dobradiças, que só ganham sentido quando manipuladas pelo observador. Cada interação transforma o objeto, fazendo com que cada espectador crie uma escultura única.

A inovação de Lygia Clark foi transformar o espectador em co-autor da obra. A arte deixou de ser um produto acabado e passou a ser um processo em constante mutação, dependente da participação humana.

Ao tocar os Bichos, o público compreende que a obra não é fixa: a beleza está na experiência de descobri-la e moldá-la. Assim, Lygia desafiou a ideia tradicional de que o objeto artístico é separado da vida e da sensibilidade do público.

Com isso, o Neoconcretismo se distanciou da frieza geométrica do Concretismo e inaugurou uma estética que integra técnica, corpo e experiência. Preparou ainda o terreno para o trabalho de Hélio Oiticica, que levaria essa interação mais longe.

Hélio Oiticica e a Arte que veste o corpo

Hélio Oiticica, discípulo de Clark e figura central do Neoconcretismo, elevou a interação ao extremo com suas obras chamadas Parangolés. Diferentemente das esculturas, os Parangolés são roupas e capas coloridas que o espectador veste.

Nildo da Mangueira vestindo P 15 Parangolé capa 11 – Incorporo a revolta (1967), de Hélio Oiticica. Foto Claudio Oiticica, 1968.

Assim, o público não só toca, mas se move, dança e se torna parte da obra. A arte deixa de ser objeto e se torna experiência corporal e sensorial. Para Oiticica, a cor, a forma e o espaço se espalham pelo ambiente e pelo corpo humano.

A obra existe na ação, no movimento, no prazer físico de sentir e criar ao mesmo tempo. Ao inserir o corpo na obra, houve a incorporação do gesto, do ritmo e da dança como elementos fundamentais da estética.

Essa abordagem radical introduz a ideia de que a arte pode ser marginal, inclusiva e coletiva. O corpo deixa de ser mero receptor e se transforma em ferramenta criativa. A experiência artística deixa de ser apenas visual e se torna vivência.

O Nascimento da Tropicália

A importância de Hélio Oiticica vai além das artes plásticas. Ele foi também responsável pelo termo e pela instalação chamada “Tropicália”, uma obra que incorporava elementos da cultura brasileira em um ambiente sensorial e experimental.

Foto da instalação Tropicália, 1967, de Hélio Oiticica, Enciclopédia Itaú Cultural, reprodução fotográfica de César Oiticica Filho.

Na obra ele explorou aspectos como a marginalidade, a favela e a vivência popular. Tudo era pensado para que o visitante experimentasse o Brasil de forma viva e concreta.

Essa instalação teve impacto direto no cenário musical. Artistas como Caetano Veloso e Gilberto Gil se inspiraram nas ideias de Oiticica, e o movimento musical Tropicália nasceu desse diálogo entre artes plásticas e música.

A estética neoconcreta, que valorizava participação, sensorialidade e marginalidade, foi a base conceitual e visual da Tropicália. Assim, unia erudito e popular, urbano e periférico, tradição e vanguarda.

O Neoconcretismo não apenas humanizou a geometria e ressignificou o papel do espectador, mas também alimentou uma revolução cultural que transcendeu a arte visual, criando uma linguagem brasileira voltada ao intelecto e aos sentidos.

Legado

O Neoconcretismo, humanizou a geometria e a abstração, transformando a obra em experiência e processo. O espectador deixou de ser um observador passivo para se tornar parte integrante da obra, coautor de sua realização e significado.

Esse gesto aparentemente simples teve repercussões profundas ao ligar a arte erudita à cultura popular. Logo, possibilitou o surgimento da Tropicália e aproximou as artes plásticas da música, do teatro e da performance.

A trajetória do Neoconcretismo não é apenas uma questão de técnica ou estilo. Ela é uma história de diálogo, que mostra como a arte pode ser viva, social, inclusiva e transformadora.

Desde os Bichos de Lygia Clark até os Parangolés de Hélio Oiticica, passando pela instalação Tropicália, a arte brasileira aprendeu a caminhar fora do pedestal, convidando todos a participar, tocar, dançar e sentir.

Esse legado permanece hoje como inspiração: a verdadeira obra de arte não está apenas na forma ou na cor, mas na experiência compartilhada, na interação e na emoção que desperta.

Em suma, o Neoconcretismo começou querendo humanizar a geometria, mas terminou criando uma ponte entre técnica e cultura, teoria e prática, erudito e popular. Assim, mostrou que a arte cumpre seu papel ao tocar quem a experimenta.

Questão do vestibular sobre o Neoconcretismo no Brasil

Simulado Enem (2021)

Hélio Oiticica, Invenção da cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe, 1977, [detalhe]. Foto: Brendon Campos

Invenção da Cor, Penetrável Magic Square #5, De Luxe (1977) foi construída postumamente, a partir das instruções deixadas por Hélio Oiticica em textos, plantas, maquetes e amostras. O uso do termo square, que traduzido para português pode significar tanto “praça” quanto “quadrado”, revela elementos fundamentais para o pensamento do artista: o interesse pelo espaço público como lugar de encontro e a herança da tradição geométrica em sua formação.
Aqui, a cor –outro elemento fundamental na produção de Oiticica –atinge a escala ambiental, na articulação de nove paredes em alvenaria, tinta acrílica, tela de arame e vidro. A presença da luz natural com as mudanças que sofre ao longo dos dias completa a obra, modificada a cada instante.

(Disponível em <https://www.inhotim.org.br/item-do-acervo/invencao-da-cor-penetravel-magic-square-5-de-luxe/> Aceso em 08jul. 2021)

As formas usadas na composição da instalação denotam preocupações do artista quanto ao/à

A) reprodução de formas abstratas para a criação de obras de paisagismo e urbanismo.
B) escolha de cores, ligada diretamente ao movimento concretista brasileiro.
C) percepção da natureza como espaço mais criativo que o urbano, lembrando a land art.
D) uso do espaço público, aproveitando-se da ambiguidade gerada pelo termo em inglês.
E) preferência pelo uso de materiais do cotidiano, que podem ser facilmente encontrados.

Resposta:

O texto aponta que o projeto elaborado pelo artista levava em consideração seu interesse sobre o espaço público. Nessa obra, cria-se uma praça com formas geométricas quadradas, incentivando o aproveitamento do espaço público.

Alternativa Correta: D

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