À pergunta – por que a senhora não compra para ele uma gaita – a lavadeira respondeu que não comprava por que gaita custava dinheiro pra danar e que ela tinha que trabalhar duas semanas para juntar o dinheiro de uma gaitinha, das menores da praça. E quem iria comprar a comida, pagar o aluguel?
Enquanto a mulher falava, seu interlocutor recordava que também ele na sua infância sonhou muito com um berimbau de um velho ex-escravo vizinho do pai. Belo berimbau, misterioso, donde o preto velho retirava melodias lindas, sem esforço e sem tropeço, como se estivesse apenas acariciando a corda. Só muito tempo depois, de barba na cara, pôde ter um berimbau; mas aí o que ele apertava entre os dedos era um arco duro e velha e fedorenta cuia, os dedos doíam, o instrumento era desajeitado, nenhum som dele se desprendia: era um arco e uma cuia.
ÉLIS, Bernardo. A lavadeira chamava-se pedra. In: Melhores contos de Bernardo Elis. 3. ed. São Paulo: Global, 2003. p. 143.
a) Em que pessoa o trecho é narrado? Transcreva um trecho que comprove sua resposta.
b) Reescreva o trecho sublinhado, de modo a passá-lo para o discurso direto.