Clarice Lispector – Para mim a arte é uma busca, você concorda?
Lygia Fagundes Telles – Sim, a arte é uma busca e a marca constante dessa busca é a insatisfação. Na hora em que o artista botar a coroa de louros na cabeça e disser, estou satisfeito, nessa hora mesmo ele morreu como artista. Ou já estava morto antes. É preciso pesquisar, se aventurar por novos caminhos, desconfiar da facilidade com que as palavras se oferecem. Aos jovens que desprezam o estilo, que não trabalham em cima do texto porque acham que logo no primeiro rascunho já está ótimo, tudo bem – a esses recomendo a lição maior que está inteira resumida nestes versos de Carlos Drummond de Andrade:
“Chega mais perto e contempla as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e te pergunta, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível que lhe deres:
Trouxeste a chave?”
Você, Clarice, que é dona de um dos mais belos estilos da nossa língua, você sabe perfeitamente que apoderar-se dessa chave não é assim simples. Nem fácil, há tantas chaves falsas. E essa é uma fechadura toda cheia de segredos. De ambiguidades.
Clarice Lispector, Entrevistas.
a) No trecho “a marca constante dessa busca é a insatisfação”, a que tipo de insatisfação se refere a entrevistada?
b) Se os versos de Drummond citados na entrevista se iniciassem pela forma verbal “Chegue” (e não “Chega”), para que se restabeleça a concordância de verbos e pronomes, as lacunas abaixo deverão ser assim preenchidas:
“Chegue mais perto e _________________ as palavras
Cada uma
tem mil faces secretas sob a face neutra
e _________________, sem interesse pela resposta
pobre ou terrível que _________________
_________________ a chave?”