Claro enigma, publicado em 1951, é um livro de poemas de Carlos Drummond de Andrade, marcado pela preocupação com a existência humana, em sua dimensão mais filosófica e introspectiva. Do conjunto da obra, selecionamos a poesia “Um boi vê os homens”, que torna o comportamento do homem um objeto de estranhamento e de reflexão inusitada, por parte de uma espécie de animal-observador.
Tão delicados (mais que um arbusto) e correm
e correm de um para o outro lado, sempre esquecidos
de alguma coisa. Certamente falta-lhes
não sei que atributo essencial, posto se apresentem nobres
e graves, por vezes. Ah, espantosamente graves,
até sinistros. Coitados, dir-se-ia que não escutam
nem o canto do ar nem os segredos do feno,
como também parecem não enxergar o que é visível
e comum a cada um de nós, no espaço. E ficam tristes
e no rasto da tristeza chegam à crueldade.
Toda a expressão deles mora nos olhos – e perde-se
a um simples baixar de cílios, a uma sombra.
Nada nos pelos, nos extremos de inconcebível fragilidade,
e como neles há pouca montanha,
e que secura e que reentrâncias e que
impossibilidade de se organizarem em formas calmas,
permanentes e necessárias. Têm, talvez,
certa graça melancólica (um minuto) e com isto se fazem
perdoar a agitação incômoda e o translúcido
vazio interior que os torna tão pobres e carecidos
de emitir sons absurdos e agônicos: desejo, amor, ciúme
(que sabemos nós), sons que se despedaçam e tombam no campo
como pedras aflitas e queimam a erva e a água,
e difícil, depois disto, é ruminarmos nossa verdade.
(2012, p. 25)
A partir da crítica perspicaz e sutil contida na poética drummondiana, estabeleça um paralelo entre a questão acima observada – os limites e os hábitos do homem vistos por um animal – à luz do ensaio filosófico de Immanuel Kant “Resposta à pergunta: que é o Esclarecimento?”, escrito no final do século XVIII, do qual reproduzimos o trecho a seguir:
É difícil, portanto, para um homem em particular desvencilhar-se da menoridade que para ele se tornou quase uma natureza. Chegou mesmo a criar amor a ela, sendo por ora realmente incapaz de utilizar seu próprio entendimento, porque nunca o deixaram fazer a tentativa de assim proceder. Preceitos e fórmulas, estes instrumentos mecânicos do uso racional, ou, antes, do abuso de seus dons naturais, são os grilhões de uma perpétua menoridade. Quem deles se livrasse só seria capaz de dar um salto inseguro mesmo sobre o mais estreito fosso, porque não está habituado a este movimento livre. Por isso são muito poucos aqueles que conseguiram, pela transformação do próprio espírito, emergir da menoridade e empreender então uma marcha segura (p. 1-2).
Para a elaboração da resposta, leve em consideração o modo de entendimento do filósofo acerca de temas como maioridade e menoridade, liberdade e servidão, razão e emoção, ciência e religião. Ao delinear a questão, mostre como o pensador alemão entendia o sentido necessário a ser adotado pelo ser humano com vistas a conquistar a sua própria emancipação.
Não deixe de considerar também o período histórico em que cada texto – o poema e o ensaio filosófico – foi produzido.