Questão
Questão Inédita - Cursos Regulares
2023
Não se aplica
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
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Conceição Evaristo (1946-...) é uma escritora contemporânea. Ela nasceu numa favela na zona sul de Belo Horizonte, trabalhou como empregada doméstica até concluir o curso Normal. Na década de 1980, escreveu para a série Cadernos Negros e entrou em contato com o grupo Quilombhoje, começando a atuar na vida literária. Hoje, continua o seu engajamento, participando ativamente de eventos de eventos como a Fliparacatu e a Flic. Acompanhe a seguir parte de sua narrativa.

OLHOS D’ÁGUA

(...) Assim fiz. Voltei, aflita, mas satisfeita. Vivia a sensação de estar cumprindo um ritual, em que a oferenda aos Orixás deveria ser a descoberta da cor dos olhos de minha mãe.

E quando, após longos dias de viagem para chegar à minha terra, pude contemplar extasiada os olhos de minha mãe, sabem o que vi? Sabem o que vi?

Vi só lágrimas e lágrimas. Entretanto, ela sorria feliz. Mas eram tantas lágrimas, que eu me perguntei se minha mãe tinha olhos ou rios caudalosos sobre a face. E só então compreendi. Minha mãe trazia, serenamente em si, águas correntezas. Por isso, prantos e prantos a enfeitar o seu rosto. A cor dos olhos de minha mãe era cor de olhos d’água. Águas de Mamãe Oxum! Rios calmos, mas profundos e enganosos para quem contempla a vida apenas pela superfície. Sim, águas de Mamãe Oxum.

Abracei a mãe, encostei meu rosto no dela e pedi proteção. Senti as lágrimas delas se misturarem às minhas.

Hoje, quando já alcancei a cor dos olhos de minha mãe, tento descobrir a cor dos olhos de minha filha. Faço a brincadeira em que os olhos de uma se tornam o espelho para os olhos da outra. E um dia desses me surpreendi com um gesto de minha menina. Quando nós duas estávamos nesse doce jogo, ela tocou suavemente no meu rosto, me contemplando intensamente. E, enquanto jogava o olhar dela no meu, perguntou baixinho, mas tão baixinho, como se fosse uma pergunta para ela mesma, ou como estivesse buscando e encontrando a revelação de um mistério ou de um grande segredo. Eu escutei quando, sussurrando, minha filha falou:

— Mãe, qual é a cor tão úmida de seus olhos?

EVARISTO, Conceição. Olhos d’água. Rio de Janeiro: Pallas; Biblioteca Nacional, 2016 (p. 18-19).

Tendo em vista a metáfora dos olhos d’água, que dá título tanto ao conto quanto ao livro, é correto afirmar que a narradora:
A
manifesta crenças religiosas como forma de superar o luto pela perda da mãe.
B
se lembrava mais do sofrimento da mãe do que traços de sua aparência física.
C
sente culpa por não poder propiciar à filha o que a sua própria mãe lhe dera.
D
critica as pessoas que vivem apenas na superficialidade sem conhecerem a família.
E
delira achando que a mãe é uma divindade ligada à vinda da chuva.