O EVANGELHO CONTADO POR UM CEARENSE
Jesus entrou numa jangada e os discípulos não contaram pipoca. Entraram também. Um dos apóstolos ainda cochichou um colega:
—Diabeisso, macho? Que foi que o ômi inventou agora?
—Sei não, macho. Sei que eu tô é dento!
Jesus armou logo uma tipoia lá atrás e deitou-se. Com todo mundo embarcado, o jangadeiro arrochou o nó pra dentro dágua.
Só que, mais na frente, deu o maior bode. Caiu um toró daqueles, de matar sapo afogado. E aí o mar ¿cou valente. As ondas lavando por cima da jangada, direto. De vez em quando vinha uma e assungava a jangada, que a bicha parecia que ia se desmantelar toda. Depois embiocava de novo num buraco de mar.
Os discípulos se aperrearam:
—Vixe!
—Valei-me, meu Deus!
—Agora pronto!
Enquanto isso, Jesus não dava nem as horas. Tirando o maior ronco, lá na rede.
Até que um dos discípulos, abriu dos pau e foi até Jesus, pedindo penico:
—Meste! Meste! O a boca quente que nós tamo, meste! A gente em tempo de se lascar aqui e o sinhô ¿ca e dormino?
Jesus queimou ruim:
—Vocês são um magote de mamanaégua mermo! Não aguentam uma lebrina!
Aí, olhou no rumo do céu e passou o maior carão:
—Vamo parar com esse chafurdo aí, que eu inda quero dormir até umas horas! Quer chover, vã chover lá na caxaprego!
E a chuva e a ventania se aquietaram que foi uma beleza. A nuvenzona preta, que estava em cima deles botou o rabo entre as pernas, chega saiu murcha.
Jesus foi dormir de novo e os discípulos (',caram naquele zum-zum-zum baixinho:
—Égua, macho, o homi botô foi quente...
—O chefe aí é invocado mermo... Num abre nem prum trem carregado de pólvora...
—Com um doido em cima, fumano...
(MATEUS, 8; 23-27 - adaptado)
Observando a linguagem utilizada, pode-se afirmar que