Questão
Simulado ENEM
2021
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000250877
Essa mesma senhora, que sofreu de sensibilidade como de doença, escolheu um domingo em que o marido viajava para procurar a bordadeira. Era mais um passeio que uma necessidade. Isso ela sempre soubera: passear. Como se ainda fosse a menina que passeia na calçada. Sobretudo passeava muito quando “sentia” que o marido a enganava. Assim foi procurar a bordadeira, no domingo de manhã. Desceu uma rua cheia de lama, de galinhas e de crianças nuas – aonde fora se meter! A bordadeira, na casa cheia de filhos com cara de fome, o marido tuberculoso – a bordadeira recusou-se a bordar a toalha porque não gostava de fazer ponto de cruz! Saiu afrontada e perplexa. “Sentia-se” tão suja pelo calor da manhã, e um de seus prazeres era pensar que sempre, desde pequena, fora muito limpa. Em casa almoçou sozinha, deitou-se no quarto meio escurecido, cheia de sentimentos maduros e sem amargura. Oh pelo menos uma vez não “sentia” nada. Senão talvez a perplexidade diante da liberdade da bordadeira pobre. Senão talvez um sentimento de espera. A liberdade.

(Clarice Lispector. Todas as crônicas. Ed. Rocco: São Paulo, 2018)

A personagem principal da crônica, não nomeada no trecho, entra em um momento epifânico após a visita à bordadeira. Esse momento de epifania, tão comum em Clarice Lispector, é motivado pelo fato
A
da negativa da bordadeira em fazer o que não gosta, por mais que precise.
B
de o marido enganá-la com frequência, forçando-a aos passeios na cidade.
C
de sentir-se suja e não poder se limpar antes de chegar na casa do marido.
D
de estar sozinha a maior parte do tempo em sua casa, precisando refletir.
E
de precisar refletir sobre sua vida de enganações próprias e com o marido.