Questão
Universidade de Rio Verde - UniRV
2019
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000136402
𝐀𝐩𝐚𝐫𝐞𝐧𝐜𝐢𝐚 𝐞 𝐫𝐞𝐚𝐥𝐢𝐝𝐚𝐝𝐞 - 𝙱𝚎𝚛𝚝𝚛𝚊𝚗𝚍 𝚁𝚞𝚜𝚜𝚎𝚕𝚕

Há algum conhecimento tão certo que nenhum homem razoável possa dele duvidar? Esta questão, que à primeira vista parece fácil, é na realidade uma das mais difíceis que se podem fazer. Quando tivermos compreendido as dificuldades com que se defronta uma resposta clara e segura, estaremos bem lançados no estudo da filosofia — uma vez que a filosofia é apenas a tentativa de responder a estas questões fundamentais, não descuidadamente e dogmaticamente, como fazemos na vida quotidiana e mesmo nas ciências, mas criticamente, após termos explorado tudo o que torna estas questões embaraçosas e termos compreendido toda a vagueza e confusão que subjazem às nossas ideias vulgares.

Na vida quotidiana assumimos como certas muitas coisas que, se as examinarmos melhor, descobrimos serem tão contraditórias que só uma reflexão demorada permite que saibamos em que acreditar. Na busca da certeza é natural que comecemos pelas nossas experiências imediatas e, num certo sentido, sem dúvida que o conhecimento deriva delas. É, no entanto, possível que esteja errada qualquer afirmação acerca do que as nossas experiências imediatas nos permitem conhecer. Parece-me que estou agora sentado numa cadeira, diante duma mesa com determinada forma, sobre a qual vejo folhas de papel manuscritas ou impressas. Se virar a cabeça, vejo pela janela alguns edifícios, as nuvens e o Sol. Acredito que o Sol está a cerca de cento e cinquenta milhões de quilômetros da Terra; que é um globo quente muitas vezes maior do que esta; que, devido à rotação terrestre, nasce todas as manhãs, e continuará no futuro a fazê-lo por um tempo indeterminado. Acredito que, se outra pessoa normal entrar nos meus aposentos, verá as mesmas cadeiras, as mesmas mesas, livros e papéis que eu vejo, e que a mesa que vejo é a mesma cuja pressão sinto no meu braço. Tudo isto parece ser tão evidente que nem merece a pena referi-lo, exceto em resposta a quem duvide de que conheço alguma coisa. Apesar disso, tudo o que afirmei pode ser submetido a uma dúvida razoável e exige uma discussão cuidadosa antes que possamos estar absolutamente certos da sua verdade.

Para tornar óbvias estas dificuldades, concentremos a nossa atenção na mesa. Para a vista a mesa é oval, castanha e brilhante, enquanto para o tato é lisa, fria e dura e, quando se lhe bate, emite um som a madeira. Qualquer pessoa que a veja, sinta e ouça estará de acordo com esta descrição e, por conseguinte, poderá parecer que não existe aqui a mais pequena dificuldade; no entanto, assim que tentemos ser mais precisos, os nossos problemas começarão. Embora eu acredite que toda a mesa é “realmente” da mesma cor, as partes que refletem a luz parecem mais brilhantes que as outras e algumas, devido à luz refletida, chegam a parecer brancas. Sei que se me mover, as partes que refletirão a luz não serão as mesmas e que a distribuição aparente das cores na mesa mudará. Por conseguinte, se várias pessoas estiverem a olhar para a mesma mesa no mesmo momento, nenhuma delas verá exatamente a mesma distribuição de cores, porque nenhuma delas a poderá ver exatamente do mesmo ponto de vista e, qualquer mudança de ponto de vista, provoca mudanças na forma como a luz é refletida.

Para a maior parte das nossas finalidades práticas estas diferenças não são importantes, embora o sejam para o pintor. O pintor tem de perder o hábito de pensar que as coisas parecem ter a cor que o senso comum diz que “realmente” têm e aprender a ver as coisas como aparecem. Eis aqui a origem duma das distinções que mais dificuldades causa em filosofia: a distinção entre “aparência” e “realidade”, entre o que as coisas parecem ser e o que são. O pintor quer saber o que as coisas parecem ser, enquanto o homem prático e o filósofo desejam saber o que são. Contudo, o desejo do filósofo por este saber é mais forte que o do homem prático e igualmente mais afetado pelo conhecimento das dificuldades em responder à questão. [...]

Torna-se desta forma evidente que a mesa real, se existe, não é idêntica à de que temos experiência imediata pela visão, pelo tato ou pela audição. Da mesa real, se existe, não temos qualquer conhecimento 𝑖𝑚𝑒𝑑𝑖𝑎𝑡𝑜, embora deva ser obtida por inferência a partir daquilo de que temos conhecimento imediato. Isto dá origem simultaneamente a duas questões bastante difíceis, a saber: 1) Existe uma mesa real? 2) Se sim, que espécie de objeto pode ser?

(𝙳𝚒𝚜𝚙𝚘𝚗𝚒𝚟𝚎𝚕 𝚎𝚖: 𝚑𝚝𝚝𝚙://𝚊𝚝𝚎𝚞𝚜.𝚗𝚎𝚝/𝚊𝚛𝚝𝚒𝚐𝚘𝚜/𝚏𝚒𝚕𝚘𝚜𝚘𝚏𝚒𝚊/𝚊𝚙𝚊𝚛𝚎𝚗𝚌𝚒𝚊-𝚎𝚛𝚎𝚊𝚕𝚒𝚍𝚊𝚍𝚎/ (𝚊𝚍𝚊𝚙𝚝𝚊𝚍𝚘)).

Assinale V (verdadeiro) ou F (falso) para a alternativa de acordo com o texto:

Para o autor, no cotidiano respondemos a questões fundamentais de forma sentenciosa e categórica e também sem precisão.
C
Certo.
E
Errado.