Questão
Universidade Federal do Pará - UFPA
2014
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000196894
Leia atentamente o Texto 5 para responder à questão.

TEXTO 5

Quando abri os olhos, vi o vulto de uma mulher e o de uma criança. As duas figuras estavam inertes diante de mim, e a claridade indecisa da manhã nublada devolvia os dois corpos ao sono e ao cansaço de uma noite mal dormida. Sem perceber, tinha me afastado do lugar escolhido para dormir e ingressado numa espécie de gruta vegetal, entre o globo de luz e o caramanchão que dá acesso aos fundos da casa. Deitada na grama, com o corpo encolhido por causa do sereno, sentia na pele a roupa úmida e tinha as mãos repousadas nas páginas também úmidas de um caderno aberto, onde rabiscara, meio sonolenta, algumas impressões do vôo noturno. Lembro que adormecera observando o perfil da casa fechada e quase deserta, tentando visualizar os dois leões de pedra entre as mangueiras perfiladas no outro lado da rua.

HATOUM, M. Relato de um certo Oriente. São Paulo: Companhia das Letras, 1989. (Fragmento)

Ao final da década de 80, o amazonense Milton Hatoum surpreende o mundo das letras com a excelência de seu romance de estréia, Relato de um certo Oriente, hoje traduzido para várias línguas. Abaixo, encontram-se trechos de críticos e teóricos literários, relacionados à obra em questão ou à narrativa em geral. Leia com atenção o Texto 5 e selecione, abaixo, a alternativa que pode ser corretamente associada a esse fragmento, no que concerne à narrativa: 
A
As complicações da narrativa são ainda mais intensificadas pelo encaixe de histórias dentro de outras histórias, de modo que o ato de contar uma história se torna um acontecimento na história [...] 

(CULLER, J. Teoria literária. uma introdução. São Paulo: Beca Produções Culturais Ltda., 1999)
B
Faz-se presente [...] uma linguagem que revela vacilos, titubeios, uma vez que a narradora expõe sua dúvida na forma de organizar as vozes do passado. 

(CHIARELLI, S. Vidas em trânsito; as ficções de Samuel Rawet e Milton Hatoum. São Paulo: Annablume, 2007).
C
No caso do “eu” como testemunha, o ângulo de visão é, necessariamente, mais limitado. [...] ele narra da periferia dos acontecimentos, não consegue saber o que se passa na cabeça dos outros, apenas pode inferir, lançar hipóteses, servindo-se também de informações, de coisas que viu ou ouviu [...] 

(LEITE, L. O foco narrativo. São Paulo: Ática, 2000)
D
[...] É possível que o reconhecimento de certas manifestações culturais como sendo ou não literatura só seja possível quando o aparato crítico da teoria da literatura bem como os procedimentos e valores da crítica se tenham refinado o suficiente para uma (ainda que tênue) percepção da alteridade. 

(LAJOLO, M. Regionalismo e história da literatura: quem é o vilão da história?. In: FREITAS, M. (org.) Historiografia brasileira em perspectiva. 6. ed. São Paulo: Contexto, 2007) 
E
Essa concepção empenhada, quem sabe devida às circunstâncias da sua vida, nos leva a perguntar de que maneira as suas convicções e sentimentos se projetam na visão do homem e da sociedade, e em que medida afetam o teor da sua realização como escritor. [...]. 

CANDIDO, A. A educação pela noite & outros ensaios. São Paulo: Ática, 1989)