Leia o fragmento do romance Luanda, Lisboa, Paraíso, da escritora angolana Djaimilia Pereira de Almeida, para responder a QUESTÃO
Glória beijou a carta do marido e fechou os olhos. Queria entrar dentro da carta, mas os sonhos dançantes da véspera e o cheiro nauseabundo não a deixavam sair de Luanda. Acontecia sempre que se preparava para dormir. Os sonhos dos dias passados regressavam como um filme mudo. Numa segunda vida noturna, era a menina Glória de saia-casaco, tantos anos, décadas atrás, de unhas douradas. Revia um nascimento agourado, um quarto de onde ninguém a ouvia, serões na casa dos vizinhos brancos onde nunca tinha jantado:
chamavam-se Barbosa da Cunha, que nome bonito, como pareciam elegantes vistos do outro lado da cerca da casa da tia. E um homem, sempre o mesmo, reaparecia-lhe, um rosto amigo. Glória dava-lhe de comer à mesa, dançava para ele, dançava com ele. Chamava por ela uma Lisboa jamais visitada, onde em becos escuros se esfumava um rapaz cujas palavras não conseguia distinguir. Queria acudir-lhe. Quem seria? Porque lhe pedia socorro, se nunca o vira? Cheirou a carta e pensou gritar por um copo de água. Ninguém a ouvia dali.
Fonte: ALMEIDA, Djaimilia Pereira de. Luanda, Lisboa, Paraíso. São Paulo: Companhia das Letras, 2019, p.181. (fragmento).
Sobre o fragmento de Luanda, Lisboa, Paraíso é CORRETO afirmar que o narrador