Leia o texto Participação de todos, de Jaime Pinsky, para responder à questão.
Participação de todos
Reivindicar ações culturais e educação de nível num país como o nosso é sempre perigoso. Haverá sempre quem levante, mais alto, a bandeira da luta contra a fome e a favor da saúde como prioridade inadiáveis e para onde deverão ser canalizados todos os recursos. Nessa mesma linha, com relação à educação, durante muito tempo prevaleceu a ideia de que qualquer escola seria melhor do que nenhuma escola, qualquer professor melhor do que nenhum professor e qualquer livro melhor do que nenhum livro. A qualidade deveria sacrificar-se à quantidade. Deu no que deu...
A falha não é, apenas, de execução, mas de formulação: a ideia de que, se é para ser para todo mundo, tem que ser ruim (“qualquer” escola, “qualquer” livro etc.). Vários países tão ou mais pobres do que o nosso atingiram, em poucos anos, resultados excelentes após terem feito um investimento importante na educação. A receita, mais conhecida do que a de pudim de leite condensado, todo mundo sabe: professores bem-formados, motivados, adequadamente remunerados e com possibilidades de se reciclarem periodicamente. Bibliotecas abertas e razoavelmente completas contendo obras acessíveis e atualizadas. Livro didático de boa qualidade.
Pode-se dizer que custa caro formar um bom professor. Errado. Um mau professor é que sai caro, por ser ineficiente e ineficaz. Um mau professor ajuda a provocar a repetência (embora, às vezes, não seja culpa sua, mas dos que aprovaram, indevidamente, os alunos em séries anteriores). Um mau professor não segura o aluno na escola; não prepara alunos para a vida profissional. É curioso que nos obriguem a usar cinto de segurança (mesmo sabendo que ao não usá-lo atentemos apenas contra nossa própria vida), sob o argumento de que o custo hospitalar de nossa internação não será pago por toda a sociedade, e convivamos com professores malformados mesmo sabendo que sua ação será deletéria contra todos os que estiverem em sua área de atuação. Não há necessidade de se fazer cálculos profundos para se chegar à conclusão de que um bom professor, decentemente pago, sai mais barato.
Outro sofisma que tem sido veiculado pela imprensa diz respeito à baixa qualidade do livro didático existente no Brasil. Longe de mim defender certas obras que não passam de colagens mal costuradas de autores inexistentes. A CBL tem dado prêmio a livros que passaram pelo crivo de exigentes comissões julgadoras – e isso não tem constituído notícia para a imprensa. De resto, o professor tem direito de escolher, em sua aula, o livro que julgar mais adequado aos seus alunos. Se especialistas julgam que o professor não fez uma escolha adequada, não seria mais razoável colocar a seu alcance obras de apoio que lhe permitissem fazer escolhas melhores (na ótica dos especialistas) do que achar que o livro didático é o culpado?
De uma forma ou de outra, o importante é saber que a educação não pode ser um projeto do governo. Ou de uma meia dúzia de iluminados. Tem que ser um projeto do e para o Brasil. Exige a participação de todos.
PINSKY, Jaime. Cidadania e educação. São Paulo: Editora Contexto, 2008.
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