Leia o texto para responder à pergunta:
𝐒𝐨𝐛𝐫𝐞 𝐩𝐫𝐨𝐦𝐞𝐭𝐞𝐫 𝐞 𝐧𝐚𝐨 𝐜𝐮𝐦𝐩𝐫𝐢𝐫 – 𝐄𝐮𝐠𝐞𝐧𝐢𝐨 𝐁𝐮𝐜𝐜𝐢
𝐴𝑐𝑟𝑒𝑑𝑖𝑡𝑒𝑖 𝑛𝑒𝑠𝑠𝑎 𝑐𝑜𝑛𝑣𝑒𝑟𝑠𝑎 𝑚𝑜𝑙𝑒/ 𝑝𝑒𝑛𝑠𝑒𝑖 𝑞𝑢𝑒 𝑜 𝑚𝑢𝑛𝑑𝑜 𝑖𝑎 𝑠𝑒 𝑎𝑐𝑎𝑏𝑎𝑟/𝑒 𝑓𝑢𝑖 𝑡𝑟𝑎𝑡𝑎𝑛𝑑𝑜 𝑑𝑒 𝑚𝑒 𝑑𝑒𝑠𝑝𝑒𝑑𝑖𝑟/ 𝑒 𝑠𝑒𝑚 𝑑𝑒𝑚𝑜𝑟𝑎 𝑓𝑢𝑖 𝑡𝑟𝑎𝑡𝑎𝑛𝑑𝑜 𝑑𝑒 𝑎𝑝𝑟𝑜𝑣𝑒𝑖𝑡𝑎𝑟/𝐵𝑒𝑖𝑗𝑒𝑖 𝑛𝑎 𝑏𝑜𝑐𝑎 𝑑𝑒 𝑞𝑢𝑒𝑚 𝑛𝑎𝑜 𝑑𝑒𝑣𝑖𝑎/𝑝𝑒𝑔𝑢𝑒𝑖 𝑛𝑎 𝑚𝑎𝑜 𝑑𝑒 𝑞𝑢𝑒𝑚 𝑛𝑎𝑜 𝑐𝑜𝑛ℎ𝑒𝑐𝑖𝑎/𝑑𝑎𝑛𝑐𝑒𝑖 𝑢𝑚 𝑠𝑎𝑚𝑏𝑎 𝑒𝑚 𝑡𝑟𝑎𝑗𝑒 𝑑𝑒 𝑚𝑎𝑖𝑜/𝑒 𝑜 𝑡𝑎𝑙 𝑑𝑜 𝑚𝑢𝑛𝑑𝑜 𝑛𝑎𝑜 𝑠𝑒 𝑎𝑐𝑎𝑏𝑜𝑢 - 𝗔𝘀𝘀𝗶𝘀 𝗩𝗮𝗹𝗲𝗻𝘁𝗲
As luzinhas de Natal não esperaram o Dia de Reis para empalidecer. Sob as chuvaradas de janeiro, os enfeites perderam seu brilho artificial, enquanto as promessas de Ano-Novo perderam a validade logo na primeira semana de 2018. Eram mentirosas. O saldo que fica das festas natalinas, hoje como antes, é sempre igual: cada um é o demagogo de si mesmo, o populista a explorar sua própria esperança; cada um tem o engenho de se enganar covardemente, anunciando recomeços que não recomeçam coisa alguma e proclamando juras que serão desmentidas antes mesmo que o sol apareça para queimar o resto das imposturas do Réveillon. O saldo é sempre o mesmo – e é sempre esquecido, para se repetir um ano depois.
O povo gosta de promessas impossíveis, tanto que, nas festas, empenha-se no autoengano. O cidadão vai lá, pula ondinhas na praia lotada (e imunda), mastiga sementes carregadas de agrotóxico, solta foguete, respira pólvora e promete o invariável ramerrão: parar de fumar, ser fiel, fazer as pazes com a tia rica, arranjar um emprego. Nada disso ele vai cumprir, é claro, mas, para se reanimar, ele depende daquela promessa sem lastro, como se a esperança só fosse possível para quem acredita em algum tipo de lorota.
As eleições no Brasil guardam uma incômoda semelhança com as celebrações de Ano-Novo. Entre a contagem dos votos e o amanhecer do dia seguinte, os eleitores vitoriosos se comprazem em crer que a história do país será refundada e nada mais será igual. Há um prazer insubstituível em sorver esse tipo de crença, por menos que ele dure. Aí, quando tudo dá errado, as multidões se apressam em amaldiçoar “os políticos” por aquilo que não foi cumprido – mas as mesmas multidões se recusam a assumir a responsabilidade por ter acreditado nas promessas. Ato contínuo, passarão a jogar fé em outros políticos, a ponto de acreditar que esses outros políticos não são políticos.
Somos um país que não acredita na política, mas acredita religiosamente em Papai Noel. Há exceções, evidentemente. Uma dessas foi o sambista José de Assis Valente, que, na música “Boas festas”, emitiu nada menos que um atestado de óbito de Papai Noel: 𝐽𝑎 𝑓𝑎𝑧 𝑡𝑒𝑚𝑝𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑒𝑢 𝑝𝑒𝑑𝑖/𝑚𝑎𝑠 𝑜 𝑚𝑒𝑢 𝑃𝑎𝑝𝑎𝑖 𝑁𝑜𝑒𝑙 𝑛𝑎𝑜 𝑣𝑒𝑚/𝐶𝑜𝑚 𝑐𝑒𝑟𝑡𝑒𝑧𝑎 𝑗𝑎 𝑚𝑜𝑟𝑟𝑒𝑢/𝑜𝑢 𝑒𝑛𝑡𝑎𝑜 𝑓𝑒𝑙𝑖𝑐𝑖𝑑𝑎𝑑𝑒 𝑒 𝑏𝑟𝑖𝑛𝑞𝑢𝑒𝑑𝑜 𝑞𝑢𝑒 𝑛𝑎𝑜 𝑡𝑒𝑚. No contexto da cultura política brasileira, a audácia de Assis Valente foi maior do que a de Nietzsche, que teria dito qualquer coisa acerca da morte de Deus.
A cultura política brasileira acredita mais em Papai Noel do que em Deus. Em lugar de ter fé num “ser superior”, a nação prefere crer num “ser publicitário superior”. Só mesmo o tal do “bom velhinho”, fantasiado com a cor da Coca-Cola, para dar conta de cessar os padecimentos dessa gente bronzeada que só mostra o seu valor quando batuca. E, por acreditar piamente em Papai Noel, o eleitor brasileiro embarca nas marquetolagens que embalam os candidatos para presente. Assim é no Réveillon, assim é nas eleições.
Num choro lançado em 1938, o mesmo Assis Valente caçoou desse negócio de sair por aí acreditando em qualquer disparate. Com o título de “E o mundo não se acabou”, a letra é a confissão de um sujeito que acreditou numa falsa profecia de apocalipse e se deu mal. Gastou o dinheiro que não tinha, permitiu-se certas indiscrições e se encrencou: 𝘝𝘢𝘪 𝘵𝘦𝘳 𝘣𝘢𝘳𝘶𝘭𝘩𝘰/𝘦 𝘷𝘢𝘪 𝘵𝘦𝘳 𝘤𝘰𝘯𝘧𝘶𝘴𝘢𝘰/𝘱𝘰𝘳𝘲𝘶𝘦 𝘰 𝘮𝘶𝘯𝘥𝘰 𝘯𝘢𝘰 𝘴𝘦 𝘢𝘤𝘢𝘣𝘰𝘶.
Em sua ironia, Assis Valente tem a elegância de não jogar a culpa em quem fez a promessa fraudulenta e toma para si a responsabilidade por ter acreditado na “conversa mole”. Por ser tão diferente, tão único, pagou um preço alto. Na sua trágica vida real, também se afundou em dívidas, em drogas e em excessos que o venceram e acabaram com o seu próprio mundo. Tentou o suicídio três vezes. Na terceira, em 1958, foi bemsucedido ao beber formicida com guaraná. Tinha 46 anos.
O sambista suicida que não bajulou Papai Noel, que duvidou das promessas fáceis e que, apesar do sofrimento, cantou uma alegria sem mentiras (𝘮𝘪𝘯𝘩𝘢 𝘨𝘦𝘯𝘵𝘦/𝘦𝘳𝘢 𝘵𝘳𝘪𝘴𝘵𝘦 𝘦 𝘢𝘮𝘢𝘳𝘨𝘶𝘳𝘢𝘥𝘢/𝘪𝘯𝘷𝘦𝘯𝘵𝘰𝘶 𝘢 𝘣𝘢𝘵𝘶𝘤𝘢𝘥𝘢/𝘱𝘳𝘢 𝘥𝘦𝘪𝘹𝘢𝘳 𝘥𝘦 𝘱𝘢𝘥𝘦𝘤𝘦𝘳), bem que poderia ser o patrono do ano brasileiro de 2018. Salve o prazer. Salve a verdade.
(𝙳𝚒𝚜𝚙𝚘𝚗𝚒𝚟𝚎𝚕 𝚎𝚖: 𝚑𝚝𝚝𝚙://𝚎𝚙𝚘𝚌𝚊.𝚐𝚕𝚘𝚋𝚘.𝚌𝚘𝚖/𝚙𝚘𝚕𝚒𝚝𝚒𝚌𝚊/𝚎𝚞𝚐𝚎𝚗𝚒𝚘-𝚋𝚞𝚌𝚌𝚒/𝚗𝚘𝚝𝚒𝚌𝚒𝚊/𝟸𝟶𝟷𝟾/𝟶𝟷/𝚜𝚘𝚋𝚛𝚎-𝚙𝚛𝚘𝚖𝚎𝚝𝚎𝚛-𝚎-𝚗𝚊𝚘𝚌𝚞𝚖𝚙𝚛𝚒𝚛.𝚑𝚝𝚖𝚕).
Assinale V (verdadeiro) ou F (falso) para a alternativa de acordo com o texto:
Em “empalidecer” (primeiro parágrafo), temos um caso de derivação parassintética.