Questão
Universidade Metropolitana de Santos - UNIMES
2017
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000170457
Leia o trecho de Morte e vida severina, de João Cabral de Melo Neto, para responder à questão.

Cansado da viagem, o retirante Severino pensa interrompê- -la por uns instantes e procurar trabalho no lugarejo onde se encontra. Dirige-se a uma mulher que está à janela de casa:

— Muito bom dia, senhora,
que nessa janela está;
sabe dizer se é possível
algum trabalho encontrar?

— Trabalho aqui nunca falta
a quem sabe trabalhar;
o que fazia o compadre
na sua terra de lá?

— Pois fui sempre lavrador,
lavrador de terra má;
não há espécie de terra
que eu não possa cultivar.

— Isso aqui de nada adianta,
pouco existe o que lavrar;
mas diga-me, retirante,
o que mais fazia por lá?

— Sei também tratar de gado,
entre urtigas pastorear:
gado de comer do chão
ou de comer ramas no ar.

— Aqui não é Surubim
nem Limoeiro, oxalá!
mas diga-me, retirante,
que mais fazia por lá?
— Em qualquer das cinco tachas
de um banguê sei cozinhar;
sei cuidar de uma moenda,
de uma casa de purgar.

— Com a vinda das usinas
há poucos engenhos já;
nada mais o retirante
aprendeu a fazer lá?

— Ali ninguém aprendeu
outro ofício, ou aprenderá:
mas o sol, de sol a sol,
bem se aprende a suportar.

— Mas isso então será tudo
em que sabe trabalhar?
vamos, diga, retirante,
outras coisas saberá.

— Deseja mesmo saber
o que eu fazia por lá?
comer quando havia o quê
e, havendo ou não, trabalhar.

— Agora se me permite
minha vez de perguntar:
como a senhora, comadre,
pode manter o seu lar?

— Vou explicar rapidamente,
logo compreenderá:
como aqui a morte é tanta,
vivo de a morte ajudar.

— E ainda se me permite
que lhe volte a perguntar:
é aqui uma profissão
trabalho tão singular?

— É, sim, uma profissão,
e a melhor de quantas há:
sou de toda a região
rezadora titular.

(Morte e vida severina e outros poemas para vozes, 2000. Adaptado.)

No trecho transcrito de Morte e vida severina está presente uma das principais preocupações do Modernismo:
A
a negação dos valores que compõem a cultura brasileira e a incorporação de influências culturais estrangeiras.
B
o foco no cotidiano em que a vida das personagens, como a do retirante Severino, é apresentada idealizadamente aos leitores.
C
a denúncia dos problemas sociais, a exemplo da transformação socioeconômica das regiões açucareiras causada pela chegada das usinas.
D
a renovação da linguagem, dando-se prioridade à fala nordestina e ao total desrespeito às normas da língua- -padrão.
E
o incentivo à criação de narrativas puramente intimistas nas quais o autor pode exteriorizar as angústias e os complexos que o afligem.