Leia o trecho do diário Minha vida de menina, de Helena Morley (1880-1970), para responder à próxima questão.
Sábado, 5 de agosto
Estou convencida de que, se vovó dirigisse o dinheiro dela, nós não passaríamos necessidade e mamãe e meu pai não ficariam tão amofinados como ficam às vezes, por falta de um pedaço de papel sujo, a que a gente tem de dar maior valor do que a muita coisa boa na vida. Meu pai vive sempre esperando dar num cascalho rico: mas é só esperança, esperança, toda a vida.
Quando ele dá no lavrado, como desta vez, lá se vai todo o dinheiro e ainda fica devendo.
Eu, tirando meu título de normalista, sei que tudo vai melhorar, pois irei até para o fim do mundo dar minha escola. Já fiz meus planos, tão bem assentadinhos, que até poderemos guardar dinheiro. Mas deixar meu pai nesta peleja, furando a terra à espera de diamantes que não aparecem, é que não deixarei. Às vezes eu dou razão a Seu Zé da Mata, da resposta que ele deu quando meu pai o foi convidar para entrar de sociedade num serviço de mineração. Ele disse: “Não, Seu Alexandre, eu não deixo o meu negócio onde estou vendo o que tenho, para procurar debaixo da terrao que eu não guardei lá!”.
Vovó sofre sabendo o que passamos, que nem a ela a gente conta, mas eu penso que ela adivinha. Os diamantinhos que meu pai tirou não deram para as despesas. E agora o que será? Tenho tanto medo de meu pai ser obrigado a vender a nossa casa, como ele já anda falando.
Hoje, depois do jantar, fomos à Chácara antes de mamãe, que meu pai estando em casa ela vai sempre mais tarde. Glorinha estava lá e fomos as duas para a frente brincar. Vovó me chamou, e Glorinha, pensando que era para eu ganhar alguma coisa, foi atrás. Vovó me perguntou: “O que é que vocês comeram hoje, minha filha?”. Glorinha, antes de eu responder, foi logo dizendo: “Eu, vovó, comi só tutu de feijão”. Vovó disse: “Eu não te perguntei nada. Se vocês comem só feijão é porque querem. Seu pai tem muito boi. Perguntei à Helena, coitadinha, porque o pai dela está sem nada”.
Depois vovó me deu, sem Glorinha ver, um papel dobrado para entregar a mamãe. Quando mamãe abriuera uma nota de cinquenta mil-réis.
MORLEY, Helena. Minha vida de menina. São Paulo: Companhia das Letras, 1998 (p. 71-72).
O período da contextualização desse diário são os anos de 1893, 1894 e 1895, período quando a cidade de Diamantina já não mais gozava da sua fama na área da mineração, encontrando-se na sua fase de decadência.
Nesse sentido, essa entrada indica