Leia o trecho do romance Ciranda de pedra, de Lygia Fagundes Telles.
Virgínia subiu precipitadamente a escada e trancou-se no quarto.
— Abre, menina — ordenou Luciana do lado de fora.
Virgínia encostou-se à parede e pôs-se a roer as unhas, seguindo com o olhar uma formiguinha que subia pelo batente da porta. “Se entrar aí nessa fresta, você morre!”, sussurrou soprando-a para o chão. “Eu te salvo, bobinha, não tenha medo”, disse em voz alta. E afastou-a com o indicador. Nesse instante fixou o olhar na unha roída até a carne. Pensou nas unhas de Otávia. E esmagou a formiga.
— Virgínia, eu não estou brincando, menina. Abre logo, anda!
— Agora não posso.
— Não pode por quê?
— Estou fazendo uma coisa — respondeu evasivamente.
Pensava em Conrado a lhe explicar que os bichos são como gente, têm alma de gente, e que matar um bichinho era o mesmo que matar uma pessoa. “Se você for má e começar a matar só por gosto, na outra vida você será bicho também, mas um desses bichos horríveis, cobra, rato, aranha...” Deitou-se no assoalho e começou a se espojar angustiosamente, avançando de rastros até o meio do quarto.
— Ou você abre ou conto para o seu tio. É isto que você quer, é isto?
Virgínia imobilizou-se. Ser cobra machucava os cotovelos, melhor ser borboleta. Mas quem ia ser borboleta decerto era Otávia, que era linda. “E eu sou feia e ruim, ruim, ruim!”, exclamou dando murros no chão. Ergueu a cabeça num desafio:
— Pode contar tudo, tio Daniel não me manda, quem manda em mim é meu pai, ouviu? Meu pai.
(Ciranda de pedra, 2009.)
A fala “quem manda em mim é meu pai” (11º parágrafo), passada ao discurso indireto, assume a seguinte redação: