Leito de folhas verdes
Por que tardas, Jatir, que tanto a custo
À voz do meu amor moves teus passos?
Da noite a viração, movendo as folhas,
Já nos cimos do bosque rumoreja.
Eu sob a copa da mangueira altiva
Nosso leito gentil cobri zelosa
Com mimoso tapiz de folhas brandas,
Onde o frouxo luar brinca entre flores.
Do tamarindo a flor abriu-se, há pouco,
Já solta o bogari mais doce aroma!
Como prece de amor, como estas preces,
No silêncio da noite o bosque exala.
Brilha a lua no céu, brilham as estrelas,
Correm perfumes no correr da brisa,
A cujo influxo mágica respira-se
Um quebranto de amor, melhor que a vida!
A flor que desabrocha ao romper d’alva
Um só giro do sol, não mais, vegeta:
Eu sou aquela flor que espero ainda
Doce raio do sol que me dê vida.
Sejam vales ou montes, lago ou terra,
Onde quer que tu vá, ou dia ou noite,
Vai seguindo após ti meu pensamento:
Outro amor não tive: és meu, sou tua!
Meus olhos outros olhos nunca viram,
Não sentiram meus lábios outros lábios,
Nem outras mãos, Jatir, que não as tuas
A arazóia na cinta me apertaram.
Do tamarindo a flor jaz entreaberta,
Já solta o bogari mais doce aroma:
Também meu coração, como estas flores,
Melhor perfume ao pé da noite exala!
Não me escutas, Jatir! Nem tardo acodes
À voz do meu amor, que em vão te chama!
Tupã! lá rompe o sol! do leito inútil
A brisa da manhã sacuda as folhas
(DIAS, Gonçalves. Poemas de Gonçalves Dias. Seleção, Introdução e Notas de Péricles Eugênio da Silva Ramos. Ed. Tecnoprint, s/d, página 75)
Avalie as afirmações sobre o texto.
I) De modo geral, a natureza, na poesia romântica, representa uma alternativa escapista: é buscada para que o artista se sinta distante de uma realidade circundante entediante ou brutal. Por outro lado, a natureza pode tornar-se uma espécie de prolongamento do estado de espírito do poeta, alterando-se conformem variem os sentimentos dele. O texto em questão prende-se a essa segunda alternativa.
II) “Eu sou aquela flor que espero ainda / doce raio do sol que me dê vida” (5ª estrofe); “Também meu coração, como estas flores,/ Melhor perfume ao pé da noite exala!” (8ª estrofe). Tais versos comprovam a veracidade da afirmação feita no item anterior.
III) O poema é construído com versos decassílabos, mas sem rimas. Por isso, é destituído de um ritmo mais melodioso, intencionalmente ausente do texto para sugerir as variações dos sentimentos experimentados pelo eu-lírico.
IV) O texto em questão é um poema lírico-amoroso, mas as personagens (a amante e o amado), as indicações do cenário natural (a selva brasileira) e do contexto cultural (a invocação a Tupã) permitem classificá-lo, também, como poema indianista.
V) Percebe-se, pelo texto, um enorme distanciamento entre as personagens, sendo que o eu-lírico espera cobrar do amado uma intimidade inexistente entre ambos, procurando uma espécie de posse não consentida por esse último.