(PROPOSTA DE REDAÇÃO)
PROPOSTA 1
A prova de redação no contexto do Vestibular Indígena (assim como no contexto do Vestibular Unicamp) envolve capacidades de leitura e escrita em língua portuguesa. Mesmo considerando que há estudantes que falam mais de uma língua – como é o caso de diversas etnias indígenas –, é o português que vai fazer parte de toda a vida acadêmica do futuro estudante universitário.
Como jovem indígena que pretende ingressar no ensino superior, você decide escrever um artigo de opinião em defesa da necessidade do estudo do português, a ser publicado no site da APIB (Associação dos Povos Indígenas do Brasil). Em seu texto, você deve: a) relatar como acontece o ensino e a aprendizagem de português em sua comunidade indígena, destacando quais as facilidades e/ou dificuldades enfrentadas nesse processo; e b) argumentar a favor da necessidade de ler e escrever em português para enfrentar os desafios do estudante universitário na universidade.
Atenção: seu artigo de opinião deve utilizar (mas não copiar) argumentos a partir da leitura da coletânea de textos a seguir.
1. O ensino de português para indígenas guarda algumas especificidades. Em primeiro lugar, a língua portuguesa é para o índio a língua do colonizador e, assim sendo, traz o ranço da violência do contato e do silenciamento das línguas indígenas. Em segundo lugar, aprender o português significa poder lutar pelos seus direitos. O português configura-se assim numa língua instrumento, arma, ferramenta, quase um mal necessário. (Adaptado de Maria Gorete Neto. Português-indígena versus português-acadêmico: tensões, desafios e possibilidades para as licenciaturas indígenas. Anais do SIELP. v. 2, n. 1. Uberlândia: EDUFU, 2012.)
2. Mesmo quando a língua portuguesa é considerada uma língua que impõe o que é, como falar e viver nessa língua, a questão pode ser resolvida em uma estratégia de uso pela resistência:
A língua portuguesa é uma língua usada para a comunicação com indígenas e não indígenas, para defender e lutar por direitos como terra, saúde e educação e também é capaz de oferecer melhoria de vida, melhores empregos na cidade e acesso a faculdades. (Joene Gomes Guajajara)
A língua portuguesa proporciona o conhecimento das leis da Constituição brasileira e é por meio de documentos escritos em português que os Tapirapé refletem os sentimentos da comunidade indígena às autoridades. (Fabinho Wataramy Tapirapé)
(Adaptado de Elismênnia A. Oliveira e Joana Plaza Pinto. Linguajamentos e contra-hegemonias epistêmicas sobre linguagem em produções escritas indígenas da Licenciatura Intercultural Indígena da UFG. Linguagem em (Dis)curso, Tubarão, SC, v. 11, n. 2, p. 311-335, maio/ago. 2011.)
3. Aprender português e estar em locais fora das aldeias não significa deixar de ser indígena, mas levar condição de sobrevivência a seus povos e resistir. O domínio da escrita como instrumento é uma coisa recente. Nós não escrevíamos como o ocidente escreve, mas nós aprendemos. Então, também para nós indígenas, a escrita é uma tecnologia. (Adaptado de Ana C. Cernicchiaro e Daniel Munduruku, Literatura para desentortar o Brasil. Crítica Cultural–Critic, Palhoça, SC, v. 12, n. 1, p. 15-24, jan./jun. 2017.)
4. Traduzindo textos de Química em Português para a Língua WaiWai, comecei a tirar boas notas nas provas e melhorei nas apresentações de seminários. (Cleiton Tamarukuku WaiWai) (Adaptado de Edson Silveira; Serguei Camargo e Stela Silveira (Org.). Professores indígenas: memórias de vida, relatos e experiências com a educação diferenciada no Estado de Roraima. UERR, 2020, p. 187.)
5. “Entrei sendo a única indígena da turma. Minha primeira língua é o nheengatu e a minha segunda língua é o português. Falar e escrever no que chamam de norma padrão é uma dificuldade, pelo menos no início”. (Luma Cristinne Fernandes Monteiro. Baré. Unicamp) Renata Cardoso. Indígenas na universidade: relatos mostram que preconceito e exclusão ainda são realidade. Desafios da Educação. 31 mai. 2022.)
PROPOSTA 2
As redes sociais criam espaços de afinidade entre as pessoas e permitem a difusão de conhecimentos. No entanto, também podem disseminar estereótipos e discursos ofensivos sobre culturas diversas, até mesmo sobre as indígenas. Como jovem indígena influencer, que soma inúmeros seguidores em suas redes, você decidiu escrever um texto a ser postado em sua rede social preferida em que você: a) discute a importância das redes sociais para a divulgação das diversas culturas indígenas; e b) argumenta em favor da regulamentação das redes sociais para evitar discursos de ódio, sobretudo contra as pessoas indígenas.
Atenção: seu post deve utilizar (mas não copiar) argumentos a partir da leitura da coletânea de textos a seguir.
1. "A internet facilita a divulgação da nossa cultura e isso também faz parte do fortalecimento da luta indígena. Nós precisamos ocupar este espaço, principalmente nas redes sociais. A realidade de hoje é muito diferente da do passado. As pessoas achavam errado que os indígenas utilizassem a tecnologia. Vejo muitos comunicadores indígenas, por meio de seus celulares, mostrando e explicando as realidades nas aldeias”, disse Kauri Waiãpi, “o cara da aldeia”, sobre seu uso das redes sociais. (Adaptado de Jorge Abreu. Folha de S. Paulo. 09/08/2023.)
2. Para a ativista indígena Alice Pataxó, a internet “traz a possibilidade de entender a luta do outro”. Para ela, a criação de conteúdo indígena, de quem vivencia e compartilha a realidade, oferece uma sensibilidade que “queremos passar para quem nos acompanha, são realidades distintas que podem ser aproximadas. As pessoas estão acostumadas com expressões – como índios e tribos – que não sugerem quem somos e isso sempre nos incomodou, mas havia pouco espaço para discussões”, disse Alice Pataxó. (Adaptado de Amanda Garcia e Letícia Brito. CNN Brasil. 20/04/2022.)
3. Como punir fake news ou discursos de ódio nas redes sociais sem que isso seja confundido com um atentado à liberdade de expressão? O Projeto de Lei 2630/2020 (conhecido como PL das Fake News), ainda não votado no Congresso Nacional, visa criar leis que possibilitem a criação de códigos de conduta para usuários, mas também para as plataformas digitais, como já acontece na União Europeia e em diversos países. Se a liberdade de expressão é fundamental para uma democracia, é preciso garantir um acesso à informação de qualidade e não sujeito a mentiras, manipulações e discursos de ódio que caracterizam parte do que circula nas redes sociais e não podem nem devem ser toleradas. Regular não é censurar. (Adaptado de Homero Costa. Sobre a regulação das redes sociais: avanço ou retrocesso. Portal Saiba Mais. 29/07/2023.)
4. Noah Álef, modelo e influencer, é indígena do povo Pataxó, nascido em Jequié, na Bahia. Ele utiliza suas redes sociais como ferramenta para discutir pautas indígenas que considera importantes. Uma de suas intenções é dar visibilidade e alertar sobre as lutas dos povos indígenas por meio da moda e dos espaços por ele ocupados. Acompanhar o Noah nos possibilita perceber, na prática, como as pessoas indígenas muitas vezes compartilham interesses cotidianos parecidos com os de pessoas não indígenas. Isso quebra uma ideia estereotipada do que essas pessoas precisam fazer ou onde devem estar para serem vistas como realmente são. (Adaptado de Abraão Veloso. Espaço do Conhecimento. UFMG, 07/06/2022.)
5. “Em muitos lugares que eu chego, as pessoas perguntam: vocês usam celular, televisão, internet? E ficam impressionados quando veem celular na nossa mão, porque acham que indígena não pode ter isso. Mas com essa comunicação que nós fazemos, elas vão vendo a nossa realidade”. Richard Wera Mirim criou a Mídia Guarani Mbya, que conecta mais de 44 mil pessoas pelo Instagram. (Tecnologia https://periferiaemmovimento.com.br/povosindigenas042023/. 19/04/2023. Thiago Borges.)