Questão
Universidade Federal de Tocantins - UFT
2023
Fase Única
PROPOSTA-REDACA12235ec29bc8
Discursiva
(PROPOSTA DE REDAÇÃO)

Tema

Individualismo e seus reflexos nas relações interpessoais na sociedade brasileira

TEXTO I

Individualismo brasileiro

Embora a construção do individualismo seja considerada condição necessária para o aparecimento da democracia, não é condição suficiente. Em determinadas sociedades como na americana, canadense ou na australiana, o movimento do individualismo aconteceu de forma a possibilitar a crença no contrato social como valor. A noção de que o poder político é consequência e expressão da relação entre indivíduos-cidadãos constitui a base destas sociedades. No caso brasileiro, o modelo de sociedade não se constituiu voltada para representar os interesses coletivos, mas de determinados indivíduos ou famílias. A coisa pública torna-se um negócio privado e não se desenvolve a valorização dos interesses públicos. Logo, os ideais de cidadania ficam atrofiados e surge um modelo de individualismo que percebe o outro como um ser que não merece respeito, a menos que faça parte da família ou da rede de relações pessoais.

Esse modelo de individualismo, embora não seja homogêneo, guardando as devidas particularidades e variações locais, é um traço muito presente em todo o tecido social, sendo, ao mesmo tempo, causa e consequência de uma dinâmica perversa, quando o outro é tratado como se fosse um ser inferior ou um inimigo. Assim, temos um contexto social marcado pela desigualdade extrema, sendo que, poucos gozam de inúmeros privilégios e vantagens e a grande maioria da população sofre com o abandono e a exploração.

No cenário político, essa cultura produziu a desvalorização das questões sociais, gerando um contexto dramático de corrupção e de péssimos serviços públicos. Na esfera privada, a lógica não é muito diferente. O imperativo do lucro se sobrepõe a qualquer preocupação social, constituindo um cenário selvagem de trapaças e de mentiras, que lesam o cidadão, gerando além de perdas materiais, muitas perdas humanas. Um exemplo particularmente dramático desta lógica foi o incêndio na boate Kiss em Santa Maria/RS, em 2013, que ceifou a vida de 242 jovens, devido a negligências com questões básicas de segurança.

No cotidiano das pessoas, a dinâmica é a mesma. Uma situação típica, que expressa bem esta forma de pensar, acontece no trânsito de automóveis pelas vias públicas. Da Matta lembra que para o trânsito funcionar bem, assim como qualquer espaço público, precisa existir uma lógica republicana, ou seja, todos devem obedecer igualmente às regras e às leis existentes. O que no Brasil é infinitamente problemático, posto que, no geral, o cidadão acha que tem o direito de adaptar as regras coletivas aos seus interesses pessoais: o famoso “jeitinho”. Assim, se estou atrasado, acelero; se preciso estacionar e não existem vagas, paro em local proibido; caso o trânsito esteja muito lento, dou uma “roubadinha”, sem maiores preocupações com os danos que essas práticas possam causar no outro.

O motorista tem dificuldade de entender o trânsito como um todo, onde o outro é um parceiro e as partes se beneficiam quando o conjunto funciona bem. Segundo Da Matta, no Brasil é comum o indivíduo se sentir inferiorizado quando é colocado na condição de igual, já que o respeito às leis é percebido como um constrangimento, que apenas os mais pobres e subalternos precisam se submeter. Isto explicaria o nervosismo e as constantes agressões que acontecem no trânsito, onde frequentemente o sujeito fica impedido de fazer valer a lei da “vantagem”, posto que os outros veículos atrapalham literalmente sua mobilidade. Neste momento acontece uma transformação, quando o outro não pode ser mais ignorado, então é percebido como um inimigo, um intruso, que precisa ser eliminado. Esta percepção aristocrática reedita uma forma de compreender e navegar pelos espaços públicos, contribuindo para nosso trânsito se transformar em um dos mais perigosos do mundo. [...].

Na margem oposta da sociedade temos os “outros”, os ladrões, assaltantes, homicidas, traficantes, estupradores, que reproduzem, embora de forma mais radical, a mesma lógica dominante nos contextos brasileiros: a negação do outro. A diferença é que esses personagens são criminalizados, perseguidos e frequentemente mortos pela polícia com amplo apoio popular.

[...]

As violências no Brasil, portanto, não devem ser pensadas como mera reação a uma ordem estabelecida ou como “desvio” do sistema, mas como um componente da cultura, amplamente disseminado pelo tecido social. Esta dinâmica se relaciona com múltiplos fatores, mas destaco aqui o nosso modelo de individualismo, que possui como característica central a negação da alteridade, reduzindo o outro à condição de mero objeto a ser manipulado ou destruído.

Fonte: LIMA, Antônio José. Individualismo brasileiro. Reeditado em 13/02/2021. Disponível em: https://www.recantodasletras.com.br/ensaios/4265873. Acesso em: 02 mar. 2023. (adaptado).

TEXTO II

(in.di.vi.du:a. lis. mo)

sm.

1. Tendência que valoriza mais os interesses individuais; EGOISMO: O individualismo excessivo prejudica a humanidade.

2. Fig. Maneira de pensar ou viver só para si: Não deve haver individualismo em trabalho de equipe.

3. Econ.Fil.Pol. Doutrina ou corrente de pensamento de valorização suprema do indivíduo, considerado o elemento mais elevado de uma sociedade e o fim de si mesma.

[F.: individual + -ismo.]

Fonte: https//aulete.com.br/INDIVIDUALISMO. Acesso: 02 mar. 2023

TEXTO III



TEXTO IV

O individualismo tecnológico

[...]

É irrefutável a consciência e certeza que a tecnologia é algo fundamental e imprescindível em nossa realidade contemporânea, e uma de suas principais missões e virtudes seria a de aproximar as pessoas e agregar os indivíduos, mas superando o discurso e a aparência imediata do tema, será que é isso que vemos em nosso cotidiano? A internet e todas as possibilidades cibernéticas estão, de fato, socializando as pessoas, ou estamos cada dia mais individualizados, reclusos e blindados?

Todas as faixas etárias e segmentos sociais estão vivenciando uma epidemia da distração, onde o foco é o celular e não o mundo real no qual estamos inseridos e devemos viver e interagir. Apesar da ilicitude, é comum vermos motoristas usando celulares, em restaurantes, para muitos, é mais importante a qualidade da foto do que o sabor do prato ou a companhia de quem está sentado ao lado.

A sociedade do consumo, da qual somos membros, como atores e autores, nos impõe o estado de constante insatisfação, incluindo o uso da tecnologia, uma vez que somos também principalmente consumidores de sensações e experiências. Há alguns anos, o Orkut supria nossas necessidades de comunicação e interação, de repente ficou obsoleto e surgiu o Facebook, que hoje não é mais suficiente, temos que ter o Instagram, Twitter, Snapchat, Whatsapp e outras possibilidades que logo serão lançadas, impostas e descartadas.

Todas essas ferramentas objetivam promover e facilitar a comunicação, como um intercâmbio de ideias e opiniões mas, dialética e contraditoriamente, as pessoas estão cada vez mais fechadas em suas bolhas customizadas por seus iphones, ipads, ipods, imacs, e esse prefixo em inglês, coloca o “eu” como guia de nossas ações e comportamentos.

Sou partícipe e integrante da revolução tecnológica e mais uma vez reafirmo a essencialidade da tecnologia e todas as suas ferramentas, apenas suscito a necessidade de ponderação e racionalização no uso destas possibilidades. Não podemos e nem devemos simplesmente aderir sem questionar a real necessidade, a maneira e a intensidade de usarmos esses instrumentos.

Mais que teclar e olhar para uma tela, vamos nos olhar nos olhos, verbalizar nossos sentimentos, enfim, viver e construir o mundo real, vale a pena!

Fonte: SIQUEIRA, João Paulo de. O individualismo tecnológico. Publicação 19/01/2017. Disponível em:
www.impresso.diariodepernambuco.com.br/noticia/cadernos/opiniao/2017/01/o-individualismo-tecnológico.html. Acesso: 02 mar. 2023. (adaptado)

TEXTO V



A partir da leitura dos textos motivadores e com base nos conhecimentos construídos ao longo de sua vivência, redija um texto dissertativo-argumentativo, em norma padrão da língua portuguesa, sobre o tema: Individualismo e seus reflexos nas relações interpessoais na sociedade brasileira, apresentando proposta de intervenção que respeite os direitos humanos. Selecione, organize e relacione, de forma coerente e coesa, argumentos e fatos para a defesa do seu ponto de vista.