( PROPOSTA DE REDAÇÃO )

EDAÇÃO
Desde a Antiguidade, os filósofos já sustentavam que, em geral, costumamos dar mais crédito à imagem do que ao objeto, à cópia do que ao original, à representação do que à realidade, à aparência do que ao ser. Por outro lado, há quem afirme que a própria constituição da personalidade humana, primariamente, forma-se por meio da imitação do outro. Sobre esse assunto, leia a coletânea de textos a seguir.
TEXTO 1
Quando o mundo real se transforma em simples imagens, estas tornam-se seres reais e motivações eficientes de um comportamento hipnótico. O espetáculo como tendência a fazer ver (por diferentes mediações especializadas) o mundo que já não se pode tocar diretamente, serve-se da visão como o sentido privilegiado da pessoa – o que em outras épocas fora o tato; o sentido mais abstrato, e mais sujeito à mistificação, corresponde à abstração generalizada da sociedade atual.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Tradução Estela dos Santos Abreu. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997. p. 18. (Adaptado).
TEXTO 2

TEXTO 3
Tinha 25 anos, era pobre, e acabava de ser nomeado alferes da Guarda Nacional. Não imaginam o acontecimento que isto foi em nossa casa. Minha mãe ficou tão orgulhosa! Tão contente! Chamava-me o seu alferes. Na vila, note-se bem, houve alguns despeitados; choro e ranger de dentes, porque o posto tinha muitos candidatos. Em compensação, tive muitas pessoas que ficaram satisfeitas com a nomeação; e a prova é que todo o fardamento me foi dado por amigos... E sempre alferes; era alferes para cá, alferes para lá, alferes a toda a hora. Eu pedia que me chamassem Joãozinho, como dantes; e todos bradavam que não, que era o "senhor alferes". Na mesa tinha eu o melhor lugar, e era o primeiro servido. A tia Marcolina chegou ao ponto de mandar pôr no meu quarto um grande espelho, obra rica e magnífica, que destoava do resto da casa, cuja mobília era modesta e simples... O certo é que todas essas coisas, carinhos, atenções, obséquios, fizeram em mim uma transformação, que o natural sentimento da mocidade ajudou e completou. O alferes eliminou o homem.
MACHADO DE ASSIS. O espelho. Obra Completa. Vol. II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994. p. 345-352. (Adaptado).
TEXTO 4
Dos simples tratamentos cosméticos às cirurgias mais radicais, é ampla a gama de recursos utilizados para tentar ficar de bem com o próprio corpo. Adereços, roupas, maquiagens, tatuagens, piercings, atividades esportivas, musculação, cirurgias plásticas buscam dar conta de um mal-estar referido ao corpo. Diante da dificuldade de encontrar em si mesmo uma imagem que satisfaça, busca-se no olhar do outro, no social a imagem que possa agradar. É frequente a experiência de cirurgiões plásticos que vêem pacientes chegar ao consultório com um retrato de uma atriz pedindo para ficar igual a ela. Muitos consideram com naturalidade esses pedidos, lembrando que a beleza, hoje, é um componente essencial no competitivo mercado de trabalho, nos negócios e na sociedade.
VOLICH, Rubens Marcelo. Formas fabricadas. Viver Mente&Cérebro. São Paulo, jun. 2005. p. 31. (Adaptado).
TEXTO 5
O meu armário não tem roupa prateada
A calça é velha e tá meio desbotada
Sinto muito se o meu tênis tá furado
Não sou produto e não vou ser rotulado
Não use fantasia pra ser diferente
Seu figurino não condiz com sua mente
Debaixo da carcaça há uma ideia ultrapassada
Tudo tem limite, senão vira palhaçada.
PITTY. Imagem é tudo. Sua cabeça não tem nada. Disponível em: <http://letras.terra.com.br/pitty/112613/>. Acesso em: 10 mar. 2011.
TEXTO 6
Por qualquer padrão que se use, existe hoje um consenso incontestável: Angelina Jolie é a mulher mais bela do mundo. Os filhos multicoloridos, as tatuagens e até o marido, ninguém menos que Brad Pitt, parecem ser tragados pela força gravitacional do planeta Angelina. Seu rosto é praticamente um manual dos traços indicadores de saúde e virtudes reprodutivas desejadas. “Nela, tudo o que é considerado universalmente belo está amplificado, mas é seu rosto sem nacionalidade definida que conquista mais e mais mulheres. Todas encontram nela alguma coisa com que se identificar”, diz Renato Saltz, vice-presidente da Sociedade Internacional de Cirurgia Estética. Com que se identificar ou o que copiar. Nada surpreendente, o princípio do “quero igual ao dela” lota consultórios de mulheres sonhando com o modelo Angelina. Mas afinal, o que fazer para virar Angelina? “Nascer linda e parecida com ela”, crava o cirurgião plástico Farid Hakme. “A cirurgia pode imitar muito bem, mas um rosto tão mudado não fica com a mesma harmonia do natural”, diz.
VILLAVERDE, Suzana. O vale-tudo para virar Angelina. Veja. São Paulo, 13 out. 2010. p. 118. (Adaptado).
TEXTO 7
Oscar Wilde certa vez propôs o paradoxo segundo o qual “apenas as pessoas superficiais não julgam pelas aparências”; epigrama este que contém uma verdade importante: a maneira pela qual as pessoas se apresentam em público, especialmente as roupas que vestem, transmite mensagens a seu respeito, quer elas tenham consciência disso ou não. Vale lembrar, por exemplo, as túnicas impostas aos chineses nos tempos de Mao Tsé-Tung, a lei instituída por Kemal Ataturk nos anos 1920, impondo o uso do chapéu como símbolo da ocidentalização, ou, ainda, de Pedro, o Grande, obrigando os aristocratas russos a raspar suas barbas e adotar a indumentária ocidental. Mas há também a política da fidelidade ou da resistência, a reivindicação de poder usar véu, turbante ou cabelos em tranças, porque esses constituem símbolos de identidade. Roland Barthes enxerga as roupas mais em termos de um sistema no qual os elementos se combinam para expressar significados, numa analogia com a linguagem. Em concordância com Barthes e Wilde, a nova geração de estudiosos do vestuário acredita que fenômenos aparentemente superficiais, como roupas, proporcionam ao observador cuidadoso pistas valiosas tanto sobre os indivíduos quanto sobre suas culturas.
BURKE, Peter. Cultura das aparências. Folha de S. Paulo. São Paulo, 16 out. 2005. p. 6. Caderno Mais. (Adaptado).
TEXTO 8
As sociedades pós-industriais vivem saturadas pela informação. Consome-se informação no design, na embalagem; devora-se informação nos mass media e na parafernália ofertada pela tecnociência (micro, vídeo etc.). O sujeito se converte assim num terminal de informação isolado de outros terminais, pois as mensagens não se destinam a um público reunido, mas a um público disperso (cada um em sua casa, seu carro, seu micro). Eis por que a massa é atomizada (ultrafragmentada). Enquanto a massa moderna era um bloco movido por interesses de classe e por ideias, na pós-modernidade ela é uma nebulosa de indivíduos atomizados, recebendo informação em separado. Ora, para motivar e controlar sujeitos atomizados, a autoridade e a polícia são secundárias. Basta bombardeá-los com mensagens que excitem seus desejos. Agora vamos ao como. De qualquer maneira o consumo, os mass media e a tecnociência modelam, motivam e controlam a nebulosa pós-moderna pelo bombardeio informacional? As mensagens são lançadas ao acaso, mas não são boladas de qualquer jeito. Não apenas representando o real, mas sendo hoje o real, as mensagens são criadas visando à espetacularização da vida, à simulação do real e à sedução do sujeito.
SANTOS, Jair Ferreira dos. O que é pós-moderno. São Paulo: Brasiliense, 1987. p. 95-96. (Adaptado).
TEXTO 9
Sua marca é a representação da sua imagem diante da sociedade à qual você pertence. O corpo humano não se alimenta apenas de água, vitaminas, carboidratos, sais minerais etc. Ele se alimenta de impressões, algumas difíceis de digerir, outras deliciosamente digeridas. Normalmente, entendemos imagem como os traços de pincel de um pintor ou como as formas esculpidas pela natureza em uma montanha ou ainda um rosto que vemos por acaso... Um sujeito que veste Armani, mas diz palavras feias e duras, muitas vezes é imensamente mais horrível e deselegante que um sujeito sorridente e feliz... Mas, convenhamos, a primeira impressão vale muito. Um terno Armani abre as portas com mais facilidade, mesmo que estas portas se fechem com a mesma velocidade no caso desta imagem não se equiparar ao comportamento de quem está com o tal terno... Assim é nossa imagem.
De nada adianta utilizar o conceito: “Por fora bela viola, por dentro pão bolorento”. Imagem é a representação mental de qualquer sentido humano para um indivíduo ou para um grupo de indivíduos. Por isso, a imaginação é tão poderosa. Porém, há uma frágil e sutil linha que divide a imaginação da fantasia. Os sábios respeitam essa linha, os tolos a rompem constantemente. Platão já afirmava o poder da imaginação em seu “Mundo Ideal” e o poder da fantasia em seu “Mito da Caverna”. Incrível mesmo é como alguém constrói uma imagem, cria ideologias, persuade e conquista seguidores e fica marcado pela história. Indivíduos que têm sua imagem perpetuada (Jesus, Nero, Maomé, Alexandre (o grande), Mao Tsé-Tung e uma lista interminável de ícones inesquecíveis). Imagem: se construída sobre a verdade, se torna soberana; se construída pela fantasia, se torna ridícula.
COLLO, Edson. Como você tem tratado sua imagem ou melhor: sua marca? Disponível em: <http://www.toptalent.com.br/index.php/2010/12/10/como-voce-tem- tratado-sua-imagem-ou-melhor-sua-marca/>. Acesso em: 18 mar. 2011. (Adaptado).
Com base na leitura dos textos selecionados, escolha UMA das três propostas de construção textual (dissertação, narração ou carta argumentativa) dadas e discuta a seguinte questão-tema:
Consumo da imagem: negação ou afirmação da identidade?
DISSERTAÇÃO
O artigo de opinião é um gênero textual em que são apresentados argumentos para convencer os leitores a respeito da validade de um ponto de vista sobre determinado assunto.
De posse dessa orientação, amparando-se na leitura dos textos da coletânea e, ainda, na sua visão de mundo, REDIJA um artigo de opinião. Para tanto, imagine-se na posição de articulista de uma revista ou jornal que esteja abordando a questão-tema desta prova.
NARRAÇÃO
O conto é o mais breve e simples gênero literário, com núcleo dramático único, centrado em um episódio da vida de um ou mais personagens.
Tendo em vista essa definição de conto e com base no Texto 3 da coletânea, CRIE uma história cujo enredo apresente um conflito que gire obrigatoriamente em torno do consumo da imagem. O foco narrativo deverá ser em 3a pessoa e o desfecho da história poderá ser a negação ou a afirmação da identidade da personagem principal. O tempo e o espaço poderão ser contemporâneos, e você deverá fazer uso de diálogo entre as personagens que criar.
CARTA ARGUMENTATIVA
A carta de leitor é um gênero textual comumente argumentativo que circula em jornais e revistas e tem como objetivo emitir um parecer de leitor sobre matérias e opiniões diversas publicadas nesses meios de comunicação.
Considerando a definição desse gênero textual, a leitura dos textos da coletânea e, ainda, suas experiências pessoais, ESCREVA uma carta de leitor a um jornal ou a uma revista de circulação nacional, emitindo o seu ponto de vista – contrário, favorável ou outro que transcenda esses posicionamentos – sobre a questão-tema desta prova.
EXPECTATIVA DA BANCA ELABORADORA DA PROVA DE REDAÇÃO
A prova de Redação do Processo Seletivo 2011/2, da Universidade Estadual de Goiás (UEG), apresenta um tema discutido desde a Antiguidade: o consumo da imagem como um mecanismo que propicia a instauração ou o apagamento da identidade. De fato, desde os primeiros filósofos, já se problematizava o costume de, em geral, atribuir-se mais valor à imagem do que ao objeto, à cópia do que ao original, à representação do que à realidade, à aparência do que ao ser. Por outro lado, sempre houve quem afirmasse que a própria constituição da personalidade humana, primariamente, opera-se por meio da imitação do outro. Nesse sentido, a Banca sugere ao candidato que se posicione diante do seguinte questionamento em forma de tema:
Consumo da imagem: negação ou afirmação da identidade?
Seguindo a tendência dos últimos processos seletivos da UEG, a prova apresenta três propostas de construção textual: dissertação, narração e carta argumentativa. Para ajudar o candidato na elaboração de sua redação, a prova traz uma coletânea de textos contendo opiniões diversas sobre o tema, o que visa fornecer elementos para a sua reflexão sobre o assunto abordado. Espera-se do candidato um tratamento crítico das informações e ideias expressas na coletânea, articulado com suas experiências pessoais. Espera-se também que ele demonstre capacidade de seleção e aproveitamento dos fragmentos textuais que lhe servirão de apoio para o desenvolvimento da sua composição discursiva. Não se trata, assim, de uma simples cópia ou de um comentário sobre a coletânea. Além disso, espera-se que a redação do candidato esteja adequada à norma padrão da língua portuguesa e, quando necessário, a outras variantes linguísticas. Por fim, espera-se do candidato habilidade no uso de mecanismos de coesão e coerência textuais, ou seja, domínio na articulação das ideias do texto de forma lógica e clara, a partir do uso de conectores e operadores argumentativos, tais como conjunções, pronomes relativos, tempos e modos verbais, entre outros.
Seguem abaixo expectativas mais específicas para o desenvolvimento do tema em cada uma das propostas apresentadas na prova:
CARTA ARGUMENTATIVA
A Banca espera que o candidato imagine-se na condição de leitor de matérias e opiniões diversas publicadas em um jornal ou em uma revista de circulação nacional, acerca do “consumo da imagem”, a partir da perspectiva apresentada na questão-tema desta prova, e, nessa condição, escreva uma carta de leitor a um desses meios de comunicação, defendendo o seu ponto de vista: contrário, favorável ou outro que transcenda esses posicionamentos.