PROPOSTA DE REDAÇÃO
Texto 1
Centenário para quem? O próximo ano será marcado pelo centenário da Semana de Arte Moderna de 1922, marco zero do modernismo brasileiro. Todavia, há controvérsias. Apenas trinta e quatro anos separam a abolição da escravatura no Brasil do maior evento de arte moderna do século 20. Ainda assim o protagonismo ali era único e exclusivamente voltado para os filhos da elite paulistana, cujos pais eram os ex-senhores de engenho de trinta e quatro anos antes. Mas não é só isso. Esses mesmos filhos da elite cafeicultora de São Paulo refletiam em seus trabalhos temas brasileiros distintos, baseados, sobretudo, no folclore “nativo” e nas “lendas rurais”, algo que, lido com as lentes de hoje, facilmente seria interpretado como apropriação cultural.
Todavia, o principal objetivo da Semana de Arte Moderna de 1922 foi repensar de maneira crítica o tradicionalismo cultural daquele tempo, então associado às correntes literárias e artísticas europeias, muito ligadas ao parnasianismo e ao academicismo formal. Dentre as ramificações que surgiram posteriormente à Semana de Arte de 1922 se destaca o “Movimento Antropofágico”, surgido em 1924, com a publicação do “Manifesto da Poesia Pau-Brasil” de Oswald de Andrade. O conceito antropofágico acreditava na “devoração”, “digestão” e “deglutição” das influências estrangeiras que subsequentemente seriam vomitadas pelos artistas com as cores, demandas e questões de uma utópica cultura “essencialmente brasileira”.
(...)
“A Semana de Arte Moderna de 1922 foi, no plano ideológico, a iniciativa de uma ‘oligarquia racista, reacionária e ao mesmo tempo modernista’, para servir aos interesses de classe da elite cafeicultora e a um projeto de hegemonia paulista, que via o Brasil como uma colônia a ser explorada pela metrópole de Piratininga.
https://vogue.globo.com/Vogue-Gente/noticia/2021/06/sobre-apagamentos-no-movimento-modernista-e-o-protagonismo-negro-na-arte-contemporanea-brasileira.html
Texto 2
"A Semana representa, intelectualmente, uma nova maneira de enxergar o mundo, vindo desse modernismo internacional. Enxergar fora do classicismo, sob uma nova ótica, fora do tradicionalismo, rompendo costumes atrasados e conservadores da elite brasileira. Ser 'moderno' e ver o mundo assim. Essa condição do olhar diferente, se demonstra na estética das obras". Simbolicamente, traz esse olhar, esse vento de mudança", avalia Italo Gomes.
Assim, entre os dias 13 e 17 daquele mês, intelectuais, pintores, escultores, músicos e escritores como Menotti dei Picchia, Mário e Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Graça Aranha, Heitor Villa-Lobos, Di Cavalcanti, entre outros, reuniram-se para mostrar suas obras e releituras.
A missão destes artistas era a ruptura com o velho e a divulgação da dita arte moderna aos brasileiros. Contudo, as ideias modernistas já circulavam muito antes da realização da Semana. O evento pontua um momento de curva dessa busca por renovação.

https://diariodonordeste.verdesmares.com.br/verso/o-que-semana-de-22-pode-ensinar-para-o-brasil-de-2022-teste-conhecimentos-com-quiz-1.3191568
Texto 3
Qual a força do movimento modernista nesse esquecimento, uma vez que aqueles autores não se enquadram perfeitamente nas propostas da turma da Semana de 22?
Foi a força da propaganda e das frases feitas, uma delas a de que a Semana foi um rompimento. Mas rompimento com quê? O verso livre e sem rima já era praticado por Mario Pederneiras desde 1910 e depois por Manuel Bandeira. Os contos de Adelino Magalhães, todos em livro antes de 1920, já tinham fluxo da consciência, ações simultâneas e até palavrões. Orestes Barbosa já escrevia naquele estilo telegráfico, picotado, que depois seria copiado por Oswald de Andrade. A Academia já não era levada a sério no Rio desde a morte de Machado de Assis, em 1908. E os poetas parnasianos já estavam desprestigiados muito antes da morte de Olavo Bilac em 1918. Nas artes plásticas, em 1922, já existiam Vicente do Rego Monteiro e Ismael Nery. Em música, Villa-Lobos, Luciano Gallet, Pixinguinha, Sinhô, sem falar em Ernesto Nazareth. A Semana, portanto, arrombou uma porta aberta. Quando se diz que o Brasil de 1922 era um atraso, que precisava ser "atualizado", e que Mario e Oswald de Andrade, Menotti del Picchia, Guilherme de Almeida, Sergio Milliet, Candido Motta Filho e outros vieram para nos salvar, leia-se: quem precisava ser atualizado eram eles, que até pouco antes eram parnasianos - e alguns continuaram sendo..
(Entrevista com Rui Castro, https://www.correiobraziliense.com.br/diversao-e-arte/2021/12/4974254-ruy-castro-a-semana-de-22-arrombou-uma-porta-aberta.html)
Texto 4
O Manifesto da Antropofagia Periférica foi lido publicamente na abertura do evento. Diferente dos manifestos elaborado por Ferréz e condizente com o perfil dos saraus, o texto de Sérgio Vaz fora redigido em versos. E logo nos primeiros versos o poeta exprime o vetor que define a característica comum do grupo:
A periferia nos une pelo amor, pela dor e pela cor.
Dos becos e vielas há de vir a voz que grita contra o silêncio que nos pune.
Eis que surge das ladeiras um povo lindo e inteligente galopando contra o passado.
A favor de um futuro limpo, para todos os brasileiros.
A favor de um subúrbio que clama por arte e cultura, e universidade para a diversidade.
Agogôs e tamborins acompanhados de violinos, só depois da aula.
https://1library.org/article/a-semana-de-arte-moderna-periferia-manifesto-antropofagia.yevljk37
A partir da leitura dos textos motivadores acima e de suas próprias reflexões, escreva um texto dissertativo-argumentativo sobre o seguinte tema:
Semana de Arte Moderna, entre elogios e críticas.