Questão
Universidade Federal de Mato Grosso do Sul - UFMS
2007
1ª Fase
4000065975
Discursiva
PROPOSTA DE REDAÇÃO

Considerando os textos do Painel de Leitura e os conhecimentos adquiridos ao longo da sua formação, redija um artigo de opinião a ser publicado numa revista voltada para o público jovem, defendendo seu ponto de vista a respeito do tema:

A escrita utilizada pelos jovens, como internautas, nos e-mails, bate-papos, weblogs e orkut, pode prejudicar a escrita que eles utilizam, como alunos do Ensino Médio, nos artigos de opinião, relatórios, provas etc?

O seu artigo deve buscar, por meio da argumentação, convencer o seu interlocutor a adotar determinada posição sobre o tema proposto, refutando possíveis opiniões divergentes.

Você deve dar um título ao seu artigo.

O Painel de Leitura, a seguir, tem o objetivo de auxiliá-lo no seu projeto de construção textual. Por meio dele, serão avaliadas sua capacidade de leitura e sua habilidade no tratamento das informações apresentadas. Assim, a leitura do Painel é obrigatória. Você não deve, simplesmente, copiar frases ou parte delas, sem que essa transcrição esteja a serviço do seu projeto de texto.

Lembre-se de que a situação de produção do seu texto requer o uso da modalidade escrita da língua portuguesa padrão, em prosa.

Organize o seu texto para que ele apresente, no mínimo, 20 (vinte) e, no máximo, 30 (trinta) linhas completas, considerando-se letra de tamanho regular.

Texto 1.

A manutenção do prestígio da escrita se deve fundamentalmente à sua função de produção de conhecimento e, ainda que imperfeita, é a ferramenta disponível para essa tarefa. De fato, ao escrevermos, não estamos expressando um pensamento já formado, mas o estamos formando à medida que escrevemos e, por isso mesmo, a língua escrita não deve mais ser vista como `espelho do pensamento´, mas como a responsável por sua estruturação. Os conhecimentos se vão formando simultaneamente à sua expressão lingüística. Nesse terreno, é visível a superioridade da escrita sobre a fala: esta última, pela ausência de registro, possibilita desvios de raciocínio, incompletude, contradições etc — problemas mais facilmente controlados pela primeira.

CARNEIRO, Agostinho Dias. Para que aprender a escrever? In: ———— Redação em construção: a escritura do texto. 2. ed. rev. e ampl., São Paulo: Moderna, 2001. p. 9.

Texto 2.

Eu acho que em todos os lugares e em todas as ocasiões as pessoas têm um modo específico de agir. Se as gírias usadas na Internet ajudam na hora de se comunicar com outras pessoas, por que não usá-las? As pessoas devem falar do jeito que acham mais apropriado para que a pessoa com quem estão falando possa entendê-las. (Natália, 10/4/2006)

Algumas pessoas acreditam que a escrita da internet não é uma ameaça à escrita culta da língua portuguesa. Falam isso porque essa maneira de escrever é recente, mas pensem daqui a uns dez anos, se não fizermos nada, como será que estará a nossa escrita? Lembrem-se que a nossa escrita já passou por várias mudanças e, hoje, existe essa dificuldade de escrever e falar respeitando a norma culta, apenas por esse motivo. Vamos refletir sobre isso! (Carolina Lima, 9/4/2006).

Uma nova linguagem, oriunda do mundo virtual, invade o mundo real e é usada nas mais diversas situações, chegando até mesmo ao ambiente escolar. Pois algumas pessoas não conseguem dissociá-la da língua formal e a usam inclusive na escrita em papel.

O “internetês” é uma simplificação informal da escrita, consiste numa codificação que utiliza caracteres alfanuméricos. No início da Internet era utilizada apenas para Internet Relay Chat (IRC). Essa linguagem vem sendo adotada em celulares, fóruns da Internet e, por vezes, até no correio eletrônico.

Nunca a comunicação por intermédio da escrita e da leitura foi tão utilizada como nos dias de hoje. Com a difusão dos blogs, orkut, chat e até mesmo nos torpedos dos celulares, a linguagem peculiar da internet invadiu a sala de aula transformando-se em preocupação para os educadores.

Não podemos nos esquecer, no entanto, de que o modo de ver e interagir com o mundo, de sentir e de atuar são sempre orientados pelos meios de comunicação. O papel do educador é o de preparar o educando para usar criticamente as diversas formas de linguagens e também utilizá-las de maneira adequada.

No “internetês” as palavras são abreviadas até se transformarem em uma única expressão, com duas ou no máximo três letras.

não = naum

sim = s

de = d

também = tb

demais = d++

cadê = kd

tc = teclar

porque = Pq

aqui = aki

acho = axo

qualquer = Qq

cada = kda

(A língua secreta que só a tribo entende (então, vamos participar desta tribo também!). Colaborou: Carmen Granja. Especial Discutindo Informática. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/biblioteca/tecnologia/tec14.htm). Acesso em 29/10/2006.

Texto 3.

1. Criar meu website
Fazer minha home page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé.
Pela Internet, Gilberto Gil (fragmento).

(Disponível em: http://gilberto-gil.letras.com.br. Acesso em: 01/10/2006)

Texto 4.

Não faz muito, um jovem normal, independente de sua escolaridade, possuía um vocabulário padrão paupérrimo, reduzido ao mínimo, ao "legal", ao "morou", ao "cara" e a outras simplificações que de certo modo eram bastantes para a comunicação entre os iguais.

Com a chegada dos e-mails, dos sites virtuais, essas necessidades aumentaram e, embora continuem a ser usados símbolos, ícones e imagens, nota-se que a palavra impressa literariamente é indispensável. Daí a sobrevivência da linguagem propriamente dita, em sua forma convencional, que não será vencida pela linguagem meramente visual e animada.

É impossível deter a geléia que isso começa a provocar na cabeça dos meninos de 10 a 12 anos que sentem necessidade cada vez maior de comunicação impressa. Aos poucos, eles estão descobrindo o universo literário em sua acepção mais clássica, precisam lidar com sujeitos, verbos e complementos, dar valor a determinadas palavras, juntá-las de forma articulada e pessoal.

Ou seja: é um retorno à literatura. E, gradualmente, esse universo irá se ampliando. É impressionante o número de e-mails que recebemos de jovens, na fase dos 14 aos 15 anos, divagando sobre temas os mais variados, e muito deles insensivelmente apelando para pequenos contos ou crônicas – recurso impensável antes da Internet, pois só era usado em salas de aula que ajudavam a formar o desdém pela linguagem literária impressa.

Discutir a sobrevivência do livro, como objeto material, é ocioso. Como produto industrial, ele estará sujeito às transformações da técnica e da circunstância. Agora, o espírito da letra, a necessidade da letra como símbolo de expressão, reflexão e comunicação, isso nada tem a temer da linguagem digital. Pelo contrário: ela ajudou a velha letra, que nossos ancestrais grafavam na pedra ou na madeira, a vencer a força e a comodidade da imagem.

CONY, Carlos Heitor. O fim do livro e a eternidade da literatura. Folha de S. Paulo, 08/09/2000 (fragmento)