Referindo-se ao livro A rosa do povo, anos depois de sua primeira publicação em 1945, Drummond comenta que a obra, ―de certa maneira, reflete um ‗tempo‘, não só individual mas coletivo no país e no mundo. Escrito durante os anos cruciais da Segunda Guerra Mundial, as preocupações então reinantes são identificadas em muitos de seus poemas, através da consciência e do modo pessoal de ser de quem os escreveu.‖
(ANDRADE, Carlos Drummond. A rosa do povo. 25. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. p. 19.)
O poema ―Anoitecer‖ foi escrito nesse contexto.
Anoitecer
A Dolores
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.
É a hora em que o pássaro volta,
mas de há muito não há pássaros;
só multidões compactas
escorrendo exaustas
como espesso óleo
que impregna o lajedo;
desta hora tenho medo.
É a hora do descanso,
mas o descanso vem tarde,
o corpo não pede sono,
depois de tanto rodar;
pede paz – morte – mergulho
no poço mais ermo e quedo;
desta hora tenho medo.
Hora de delicadeza,
gasalho, sombra, silêncio.
Haverá disso no mundo?
É antes a hora dos corvos,
bicando em mim, meu passado,
meu futuro, meu degredo;
desta hora, sim, tenho medo.
No poema ―Anoitecer‖, Carlos Drummond de Andrade vale-se de um conjunto de imagens metafóricas, entre as quais a expressão