Questão
Universidade Federal da Bahia - UFBA
2011
1ª Fase
4000187989
Discursiva
(SOMATÓRIA)

Pôs-se a berrar, imitando as cabras, chamando o irmão e a cachorra. Não obtendo resultado, indignou-se. Ia mostrar aos dois uma proeza, voltariam para casa espantados. Aí o bode se avizinhou e meteu o focinho na água. O menino despenhou-se da ribanceira, escanchou-se no espinhaço dele. 

Mergulhou no pelame fofo, escorregou, tentou em vão segurar-se com os calcanhares, foi atirado para a frente, voltou, achou-se montado na garupa do animal, que saltava demais e provavelmente se distanciava do bebedouro. Inclinou-se para um lado, mas, fortemente sacudido, retomou a posição vertical, entrou a dançar desengonçado, as pernas abertas, os braços inúteis. Outra vez impelido para a frente, deu um salto mortal, passou por cima da cabeça do bode, aumentou o rasgão da camisa numa das pontas e estirou-se na areia. Ficou ali estatelado, quietinho, um zunzum nos ouvidos, percebendo vagamente que escapara sem honra da aventura. 

[...] 

Olhou com raiva o irmão e a cachorra. Deviam tê-lo prevenido. Não descobriu neles nenhum sinal de solidariedade: o irmão ria como um doido, Baleia, séria, desaprovava tudo aquilo. Achou-se abandonado e mesquinho, exposto a quedas, coices e marradas. [...] 

Lembrou-se de Fabiano e procurou esquecê-lo. Com certeza Fabiano e sinha Vitória iam castigá-lo por causa do acidente. [...] 
[...] 

Retirou-se. A humilhação atenuou-se pouco a pouco e morreu. Precisava entrar em casa, jantar, dormir. E precisava crescer, ficar tão grande como Fabiano, matar cabras a mão de pilão, trazer uma faca de ponta à cintura. Ia crescer, espichar-se numa cama de varas, fumar cigarros de palha, calçar sapatos de couro cru. 

Subiu a ladeira, chegou-se a casa devagar, entortando as pernas, banzeiro. Quando fosse homem, caminharia assim, pesado, cambaio, importante, as rosetas das esporas tilintando. Saltaria no lombo de um cavalo brabo e voaria na catinga como pé-de-vento, levantando poeira. Ao regressar, apear-se-ia num pulo e andaria no pátio assim torto, de perneiras, gibão, guarda-peito e chapéu de couro com barbicacho. O menino mais velho e Baleia ficariam admirados. 

RAMOS, Graciliano. Vidas secas. 74. ed. Rio de Janeiro, São Paulo: Record, 1998. p. 51-53. Sobre o fragmento, contextualizado na obra, é verdadeiro o que se afirma em 

(01) A narrativa apresenta uma linguagem de carga semântica negativa, ligada à agressividade e à violência praticadas entre as personagens. 

(02) O projeto de autorrealização do menino ocorre no futuro, como compensação da frustração experimentada no presente. 

(04) O menino apresenta um padrão de conduta que se assemelha ao de sinha Vitória, no que se refere às suas atitudes e ações. 

(08) O menino da narrativa necessita de testemunhas, de público: ele quer comprovação de suas façanhas, de sua coragem. 

(16) O sentido inusitado da situação mostrada no fragmento ocorre porque o animal percebe o insucesso da ação praticada pelo menino, enquanto o irmão zomba dele. 

(32) O processo de aprendizagem da criança restringe-se à imitação de animais integrantes do cenário nordestino.