Questão
Universidade Estadual de Maringá - UEM
2022
Fase Única
4000278065
Discursiva
(SOMATÓRIA)

Sobre a obra Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, assinale o que for correto.

Capítulo XI

O menino é pai do homem

Cresci; e nisso é que a família não interveio; [...] Prudêncio, um moleque da casa, era o meu cavalo de todos os dias; punha as mãos no chão, recebia um cordel nos queixos, à guisa de freio, eu trepava-lhe ao dorso, com uma varinha na mão, fustigava-o, dava mil voltas a um e outro lado, e ele obedecia – algumas vezes gemendo –, mas obedecia sem dizer palavra, ou, quando muito, um “ai, nhonhô”, ao que eu retorquia: – Cala a boca, besta! [...] meu pai tinha-me em grande admiração; e se às vezes me repreendia à vista de gente, fazia-o por simples formalidade: em particular dava-me beijos. [...] afeiçoei-me à contemplação da injustiça humana, inclinei-me a atenuá-la, a explicá-la, a classificá-la por partes, a entendê-la, não segundo um padrão rígido, mas ao sabor das circunstâncias e lugares. Minha mãe doutrinava-me a seu modo, fazia-me decorar alguns preceitos e orações; [...] Dessa terra e desse estrume é que nasceu essa flor. 

ASSIS, M. de. Memórias póstumas de Brás Cubas. São Paulo: Martin Claret, 2012, p. 38-41. 

01) O narrador mostra sua sensibilidade ao relatar algumas memórias da infância, a qual, como de costume, foi povoada pela ingenuidade infantil e por brincadeiras com crianças de idade próxima, a exemplo do moleque Prudêncio. Essa sensibilidade do personagem é sutilmente simbolizada na metáfora do nascimento da singela flor. 

02) Ainda que, por vezes, durante as brincadeiras infantis pudessem ocorrer alguns abusos, como na cena destacada, o modo carinhoso com que Prudêncio se refere a Brás Cubas – “nhonhô” – destaca afeto e amizade entre ambos, que perdurarão na fase adulta. Nos momentos de dificuldade financeira, como no nascimento do filho, Prudêncio sempre pôde contar com as boas ações de Brás Cubas, frutos da educação paterna e das orações e dos preceitos ensinados pela mãe. 

04) O romance evidencia como a infância de Brás Cubas e de Prudêncio foram muito desiguais. Ciente da possibilidade de opressão legitimada, o filho do senhor de escravizados não hesita em, literalmente, montar nas costas de Prudêncio. De modo sagaz, esta é uma das cenas da obra que, simbolicamente, retrata e possibilita a reflexão crítica acerca da estrutura social e de poder na sociedade brasileira. 

08) Mesmo com condições sociais distintas, Brás Cubas e Prudêncio possuem um aspecto em comum: o acesso ao estudo formal. Prudêncio, mesmo tendo nascido em contexto de escravidão, tornar-se-á um renomado contador e será o responsável pelas finanças do amigo Brás Cubas, em retribuição à ajuda obtida para que pudesse concluir seus estudos. 

16) Nascido e vivendo no Rio de Janeiro em pleno século XIX, o protagonista do romance é um representante da elite carioca da época. Mesmo tendo a oportunidade de cursar Direito na Europa, não necessitou dessa formação e nem do trabalho para seu sustento, fato do qual se gaba, uma vez que, graças a privilégios que possuía, viveu confortavelmente das rendas e posses herdadas.