SOMATÓRIA
Leia atentamente o poema “O quarto em desordem”, de Carlos Drummond de Andrade e assinale a(s) alternativa(s) correta(s).
O quarto em desordem
Na curva perigosa dos cinquenta
derrapei neste amor. Que dor! que pétala
sensível e secreta me atormenta
e me provoca à síntese da flor
que não se sabe como é feita: amor,
na quinta-essência da palavra, e mudo
de natural silêncio já não cabe
em tanto gesto de colher e amar
a nuvem que de ambígua se dilui
nesse objeto mais vago do que nuvem
e mais defeso, corpo! corpo, corpo,
verdade tão final, sede tão vária,
e esse cavalo solto pela cama,
a passear pelo peito de quem ama.
(ANDRADE, C. D. Antologia Poética. São Paulo: Companhia das Letras, 2015, p. 201)
01) De acordo com os dois primeiros versos do poema, o eu lírico já atingiu os cinquenta anos. A vida, de maneira metafórica, é representada no soneto como uma estrada, na qual a curva da idade apresenta alguns perigos, sendo o principal deles o amor.
02) O título do poema demonstra que o eu lírico é um sujeito desorganizado que vive um amor platônico. O quarto em desordem é uma metáfora de como o amor é vivido apenas na memória por esse senhor. O fato de nunca falar, como se comprova pelos versos: “[...] e mudo/ de natural silêncio já não cabe/ em tanto gesto de colher e amar”, representa o amor idealizado do sujeito que habita o quarto.
04) No poema, o eu lírico não esperava mais viver uma experiência amorosa, já que é um sujeito maduro. O verbo “derrapar” e o substantivo “dor” presentes no segundo verso, além do verbo “atormentar”, no terceiro verso, corroboram esta ideia. A derrapagem é um acidente de percurso, não esperado, o que abala o suposto caminho de tranquilidade do eu lírico, sugerindo que o amor aos cinquenta anos seja algo que quebra a sequência natural do homem rumo à velhice.
08) Embora o eu lírico não esperasse pelo amor, o poema mostra que ainda há fôlego para viver essa experiência. A última estrofe desenvolve um certo caráter erótico, que se anuncia ao final do último verso do primeiro terceto, que se encerra com a repetição da palavra “corpo”. Insinua-se, assim, nas aliterações em “p”, o ritmo cardíaco acelerado e o cavalgar pelo “peito de quem ama”, que fecha o poema.
16) O poema de Drummond representa o amor fora de época tão tradicional na história da literatura. O eu lírico também é um homem maduro, que se apaixona por uma moça mais jovem, representada pelas metáforas da “pétala”, da “flor” e das “nuvens”. Imagens que remetem à adolescência e à ingenuidade do ser que é objeto do amor.