SOMATÓRIA
Leia o fragmento do romance Iracema, de José de Alencar, e assinale o que for correto sobre esse trecho, sobre o romance ao qual ele pertence, e sobre a obra do autor.
– Vai, e torna com o vinho de Tupã.
Quando Iracema foi de volta, já o Pajé não estava na cabana; tirou a virgem do seio o vaso que ali trazia oculto sob a carioba de algodão entretecida de penas. Martim lho arrebatou das mãos, e libou as gotas do verde e amargo licor.
Agora podia viver com Iracema, e colher em seus lábios o beijo, que ali viçava entre sorrisos, como o fruto na corola da flor. Podia amá-la e sugar desse amor o mel e o perfume, sem deixar veneno no seio da virgem.
O gozo era vida, pois o sentia mais forte e intenso; o mal era sonho e ilusão, que da virgem não possuía senão a imagem.
Iracema afastara-se opressa e suspirosa.
Abriram-se os braços do guerreiro adormecido e seus lábios; o nome da virgem ressoou docemente.
A juriti, que divaga pela floresta, ouve o terno arrulho do companheiro; bate as asas, e voa a aconchegar-se ao tépido ninho. Assim a virgem do sertão aninhou-se nos braços do guerreiro.
(Alencar, José. Iracema. São Paulo: Moderna, 1993, p. 50 e 51)
01) O romance apresenta a lenda da fundação do Ceará, simbolizada por meio do relacionamento amoroso proibido entre Iracema, índia da tribo dos Tabajaras, guardiã do “segredo de jurema”, e Martim, colonizador português, aliado dos Pitiguaras. Tal proibição se justifica por se tratar de um homem branco, aliado da tribo inimiga e, sobretudo, pelo fato de Iracema ter de se manter virgem em função do posto que ocupa junto a seu povo: o de guardiã do segredo do preparo da “jurema”, bebida cujos efeitos, explorados pelos pajés, resultam em sonhos agradáveis, vivos e intensos.
02) O romance integra o projeto literário de José de Alencar, cujo objetivo era traçar um panorama da história e da cultura brasileiras por meio de uma série de romances. Isso porque o país, tendo conquistado sua independência política, precisava, então, emancipar-se e/ou identificar-se culturalmente. A representação literária, nesse sentido, ainda que idealizada na pena do escritor romântico, converte-se em uma importante estratégia de valorização da cultura nacional.
04) O fragmento transcrito refere-se ao modo como Iracema resolve o impasse estabelecido entre o sentimento amoroso que a une a Martim e a interdição dessa união. Ele prefere não semear a desgraça na tribo dos Tabajaras, possuindo Iracema apenas nos delírios provocados pelo “vinho de Tupã”; ela, todavia, valendo-se do estado de dormência do amado, favorece a consumação da união proibida, tendo que, posteriormente, arcar com as consequências.
08) O romance, publicado em 1865, consiste no marco inaugural do Romantismo brasileiro. Isso porque, embora outras obras do mesmo autor, e de outros contemporâneos dele, já fossem conhecidas do público, nenhuma reuniu tantas características que a partir de então conferiram o tom da escola romântica. Dentre essas características, destaca-se o traço poético conferido ao texto narrativo, dando origem à chamada prosa poética.
16) O fato de Iracema ter induzido Martim a consumar a união dos dois, conforme bem se pode verificar nesse fragmento, acarreta a ela a expulsão da tribo dos Tabajaras, assim como a maldição que vai resultar na sua morte, após o nascimento de seu filho Moacir. Trata-se de uma punição que, bem ao gosto da escola romântica, reafirma os padrões de moralidade da época, inclusive no que se refere ao modo como Martim passa a considerá-la a partir de então: uma adúltera em potencial.