Sítio
O morro está pegando fogo.
O ar incômodo, grosso,
faz do menor movimento um esforço,
como andar sob outra atmosfera,
entre panos úmidos, mudos,
num caldo sujo de claras em neve.
Os carros, no viaduto,
engatam sua centopeia:
olhos acesos, suor de diesel,
ruído motor, desespero surdo.
O sol devia estar se pondo, agora
mas como confirmar sua trajetória
debaixo desta cúpula de pó,
este céu invertido?
Olhar o mar não traz nenhum consolo
(se ele é um cachorro imenso, trêmulo,
vomitando uma espuma de bile,
e vem acabar de morrer na nossa porta).
Uma penugem antagonista
deitou nas folhas dos crisântemos
e vai escurecendo, dia a dia,
os olhos das margaridas,
o coração das rosas.
De madrugada,
muda na caixa refrigerada,
a carga de agulhas cai queimando
tímpanos, pálpebras:
O menino brincando na varanda.
Dizem que ele não percebeu.
De que outro modo poderia ainda
ter virado o rosto: — Pai!
acho que um bicho me mordeu! assim
que a bala varou sua cabeça?
𝘊𝘭𝘢𝘶𝘥𝘪𝘢 𝘙𝘰𝘲𝘶𝘦𝘵𝘵𝘦-𝘗𝘪𝘯𝘵𝘰. 𝘔𝘢𝘳𝘨𝘦𝘮 𝘥𝘦 𝘮𝘢𝘯𝘰𝘣𝘳𝘢. 𝘙𝘪𝘰 𝘥𝘦 𝘑𝘢𝘯𝘦𝘪𝘳𝘰: 𝘌𝘥𝘪𝘵𝘰𝘳𝘢 𝘈𝘦𝘳𝘰𝘱𝘭𝘢𝘯𝘰, 2005 (𝘤𝘰𝘮 𝘢𝘥𝘢𝘱𝘵𝘢çõ𝘦𝘴)
A respeito da construção literária do texto, assinale a opção correta.