TEXTO 1
Crianças e guerras, crianças nas guerras
Anete Abramowicz Maria Cristina Gouvêa
As guerras contemporâneas não são apenas entre países. Há as guerras civis, que são contra a própria população, vinculadas a uma espécie de guerra “biológica”, como sugere Alliez e Lazzarato (2016). No Brasil a guerra é contra a população negra, contra sexualidades dissidentes, contra algumas mulheres e contra algumas crianças. Os alvos preferenciais da guerra do Estado brasileiro contra as crianças têm sido nomeados de “balas perdidas”, que são direcionadas contra as crianças negras e pobres (Abramowicz, 2020). No caso brasileiro, os efeitos da ação do Estado sobre populações negras, indígenas, trabalhadores rurais, dentre outras, envolvem um número de assassinatos superior ao de muitas das guerras assim declaradas. Se, num sentido restrito, as guerras nunca deixaram de existir ao longo da história humana, sua emergência é sempre recebida como acontecimento disruptivo, dramático e traumático, cujo impacto recai preponderantemente sobre aqueles que dela não participam diretamente: velhos, mulheres e crianças. A trajetória dos conflitos armados, em suas mais variadas expressões e extensões, segue um determinado script, envolvendo deslocamentos territoriais, violências nas mais diversas formas, mortes, em que o sofrimento humano é vivido com intensidade extrema, marcando definitivamente as histórias de vida daqueles e, sobretudo, daquelas que experimentam seus efeitos.
Quando discutimos e escrevemos sobre as guerras, as crianças nunca aparecem como protagonistas. O que elas pensam e fazem não é absolutamente levado em conta. Quando crianças emergem no cenário social da guerra, são em números que servem para evidenciar as atrocidades cometidas contra elas. Mesmo quando as crianças são utilizadas como ferramentas da guerra, como soldados, não importa o que elas sentem, pensam ou vivem. Segundo a UNICEF: “a maior parte das crianças soldadas sofrem de pesadelos, de estado de pânico, de insônia, por muito tempo, mesmo depois de serem desmobilizadas”. Ainda segundo a UNICEF “em 2020, 8.521 crianças soldadas são recrutadas em países como a República Democrática do Congo, a Síria, a Somália, e o Iêmen (segundo relatório das Nações Unidas, 2021)”. A vulnerabilidade das crianças afetadas pelos conflitos vem crescendo junto à pandemia da covid-19.
As crianças não passam de territórios de disputas e fazem parte dos artefatos de guerra. Não todas as crianças: em geral, as negras e pobres. As meninas também sofrem violações sexuais e são “frequentemente vítimas de violações sistemáticas ou contaminadas intencionalmente pelo vírus da aids – sob os olhos de pessoas de suas proximidades.
Acontece também que as meninas e as mulheres sejam sequestradas e vítimas de abusos durante anos. Muitas delas não voltam jamais”. Ou seja, o corpo da mulher, da menina e da criança são territórios da guerra.
[...]
A questão política requer pensar sobre quais aparatos e dispositivos podemos criar para proteger as crianças da gana do capital, das guerras, do racismo, das discriminações, da pobreza, dos jogos eletrônicos, etc. Todo o aparato jurídico construído a partir da Declaração de Genebra dos Direitos da Criança em 1924 até a Convenção sobre os Direitos da Criança adotada pela Assembleia Geral da ONU em 20 de novembro de 1989 e ratificada por 196 países tem sido totalmente ineficaz na proteção da criança.
O aparato jurídico protetor convive com o fato de que as guerras são negócios em que tantas vezes aqueles que denunciam a barbárie se calam sobre o volume de recursos gastos na produção, circulação e uso das armas.
Necessitamos não apenas de instrumentos normativos e jurídicos, mas também da participação política das crianças, além, e sobretudo, de sua perspectiva, como propõe a Sociologia da Infância. É preciso compreender que as crianças vivem por meio de suas famílias e parentes o campo histórico e mundial. As guerras as jogam imediatamente no campo das forças mundiais, históricas e sociais, onde elas próprias têm poucas ferramentas analíticas e subjetivas para enfrentamento.
Há fotos nas quais as crianças aparecem como protagonistas e que também fazem parte da guerra iconográfica representacional, às vezes como despojos, às vezes como alvos. Essas vidas de crianças fotografadas têm a função de produzir lamentações e denunciar as barbáries das guerras e, também, uma maneira de prolongar por esta via a violência da guerra. Possuem a função de produzir uma atmosfera de luto, de comoção e de melancolia mundial. É uma dimensão estética da guerra, cuja exploração e instrumentalização do efeito visual é parte da própria estratégia de guerra. Se a participação na guerra é compreendida como atividade adulta, em que a criança emerge como vítima de seus efeitos e como objeto de proteção, na realidade, ela constitui personagem constante e presente em todos os conflitos armados. As crianças não são sujeitas à história das guerras, pois não são elas que as promovem, elas são invariavelmente silenciosas e silenciadas.
A participação das crianças nas guerras e conflitos armados não se reduz ao lugar de vítimas passivas. Muitas vezes, ao longo da história, crianças e jovens tomam parte dos conflitos, em movimentos de resistência à opressão vivida pelas famílias e suas comunidades. Nos relatos de sobreviventes nos guetos da Segunda Guerra Mundial, é comum a referência à participação das crianças que, com seus corpos diminutos e ágeis, conseguiam fugir e trazer comida, muitas vezes garantindo a sobrevivência dos adultos. Angela Davis tematiza esta questão ao contar a participação política das crianças negras à época da luta pelos direitos civis em 1963 nos movimentos de resistência ao racismo. No contexto contemporâneo, as crianças e jovens se fazem presentes na Intifada Palestina, ao jogar pedras contra as forças de ocupação, corporificando a resistência a uma política de violência e terror contra a comunidade da qual participam. [...]
A participação das crianças e jovens nos conflitos armados não se reduz à ação direta. Elas produzem poemas, vídeos, livros de história, desenhos, em que lançam mão da linguagem estética para narrar sua experiência de vida. São crianças que, no uso de diferentes linguagens, expõem as condições trágicas em que vivem a infância. Desde o icônico relato de Anne Frank ao Diário de Zatla, entre outros, as crianças fazem ouvir suas vozes diante da barbárie. Não são crianças desprovidas de infância, mas que recorrem a diferentes formas de expressão para narrar o vivido e se afirmarem sujeitos de sua história.
Adaptado de Jornal da Ciência, JUN/JUL 2022, p. 14-15.
Fonte: Jornal da Ciência. Edição 799, jun/jul 2022.
Disponível em http://www.jornaldaciencia.org.br/edicoes/?url=http://jcnoticias.jornaldaciencia.org.br/category/pdf/. Acesso em 08 set 2022.
Com que argumentos as autoras do texto “Crianças e guerras, crianças nas guerras” sustentam a opinião emitida no 3º parágrafo de que “[...] o corpo da mulher, da menina e da criança são territórios da guerra.”?