TEXTO 2
5 MOTIVOS PARA ACREDITAR NO FUTURO
Lidia Rosenberg Aratangy
Às vezes você desanima diante das notícias do Brasil e do mundo? No fundo, acha que esse filme vai acabar mal? Então, resgate sua fé na humanidade lendo este artigo da psicoterapeuta Lidia Rosenberg Aratangy. Seu otimismo pode nos contagiar porque ele não é cego, e sim fruto de um olhar justo e generoso.
Em todas as gerações há profetas que anunciam o fim dos tempos, como se coubesse à sua época a tarefa de gerenciar a falência de nossa civilização. Também desta vez os arautos do apocalipse soam trombetas denunciando que o mundo vive um momento inédito e irreversível de violência e perda de valores. Não é o que vejo. O fato de termos armas mais poderosas faz guerras mais mortíferas, mas não eram menos cruéis as cruzadas de antigamente. A lembrança de que a escravidão foi aceita com naturalidade durante séculos é suficiente para demonstrar que já fomos piores do que somos hoje. Ainda precisamos melhorar, mas não tenho dúvidas de que não nos perdemos do bom caminho. O paradoxo é que o mal parece mais interessante do que o bem, como se apenas na maldade houvesse mistérios a desvendar. Por isso, quem se orienta somente pelas manchetes não compartilha do meu otimismo em relação ao futuro. Quem tiver olhos para ver, porém, terá bons motivos para acreditar no que há de vir.
1. A crescente solidariedade
Sempre existiram loucos e fanáticos. Não creio que sejam proporcionalmente mais numerosos em nossos dias do que em outros tempos. Mas hoje, com o amplo sistema de comunicação de que dispomos, as notícias chegam rapidamente ao conhecimento de muitos. E a mídia, confirmando e alimentando nossa perversão, considera os vilões mais atraentes do que os heróis e dirige nosso olhar para o lado maligno dos fatos que relata.
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2. O aumento da tolerância
Apesar do eventual recrudescimento de preconceitos aqui e ali, estamos mais tolerantes para com as diferenças e as fraquezas humanas: o divórcio é reconhecido na maioria dos países, as mulheres solteiras ou divorciadas já não são marginalizadas, os homossexuais estão protegidos por lei, o racismo é considerado crime. As escolas preocupam-se em facilitar a inclusão de alunos deficientes – o que, sem dúvida, beneficia o desenvolvi mento das crianças normais. A tecnologia cria recursos para compensar nossas fraquezas e deficiências (elevadores com marcadores em relevo para quem não enxerga, telejornais com linguagem gestual para quem não ouve, ônibus com degraus mais baixos para facilitar o acesso de idosos). Diversas composições familiares são hoje aceitas: as chefiadas por mulheres (separadas ou solteiras), as formadas por filhos de diferentes casamentos ou por pais que detêm a guarda dos filhos – todas equivalentes em seus direitos e angústias.
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3. A valorização da ética
Há um paradoxo na nossa relação com a ética. Pais, filósofos e educadores concordam quanto aos valores a serem preservados e transmitidos. A questão é que a crença nos valores se dá no atacado e no abstrato, enquanto sua transmissão se faz no concreto das relações cotidianas. Aí se instala a contradição. Ficam desacreditadas as solenes exposições pedagógicas sobre disciplina e respeito aos direitos do outro quando a escola é conivente com brincadeiras agressivas; os repetidos sermões sobre limites ficam sob suspeita se os pais passam pelo acostamento quando a estrada está congestionada ou param em fila dupla na frente da escola; nossas conversas sobre integridade ficam comprometidas quando compramos vídeos e discos pirateados ou fazemos ligações clandestinas de TV a cabo. Talvez a coerência não seja um atributo dos humanos: sentimentos contraditórios convivem tranquilamente dentro de nós. Infelizmente também somos muito distraídos: a maior parte do tempo, funcionamos sob o comando de um piloto automático, que nos empurra para o caminho mais fácil, esquecidos dos valores que deveriam nortear nossas escolhas. Mas nossas crianças prestam atenção nos nossos gestos – e gravam mais nossas atitudes do que nossas palavras.
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4. A força da família
A participação efetiva da mulher no universo do trabalho levou as empresas a valorizar atributos antes considerados fragilidades femininas (como a inteligência emocional), e já não precisamos nos virilizar para sermos bem-sucedidas. Ainda há muito a melhorar (a mulher continua ganhando menos do que o homem quando ambos exercem a mesma função), mas o envolvimento com a carreira já provocou mudanças na dinâmica familiar. Desenvolve-se um jeito novo de ser pai, criou-se uma parceria mais simétrica e verdadeira entre homens e mulheres – um dos alicerces importantes na construção de um futuro melhor. Ao contrário do que se temia, essa simetria entre os membros do casal fortaleceu os laços familiares e provocou uma participação mais efetiva do homem na vida doméstica e um convívio mais íntimo entre pais e filhos. No meu trabalho de terapeuta, sou procurada por famílias que desejam encontrar caminhos para manter desobstruídos os canais de comunicação para que os seus encontros sejam momentos afetivos de trocas e interesses verdadeiros, e não meros pretextos para sermões e cobranças.
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5. O cuidado com o meio ambiente
Mais um motivo para alimentar minha fé no futuro é a percepção de que temos hoje uma preocupação genuína com as consequências a longo prazo de nossas escolhas, em contraposição ao imediatismo irresponsável e egoísta: somos capazes de plantar jabuticabeiras, literal e simbolicamente, mesmo sabendo que não seremos nós a saborear os frutos. Estamos menos cegos e arrogantes, mais dispostos a assumir nossa responsabilidade na cadeia da vida, a preservar outras espécies e salvar as que estão ameaçadas de extinção. Há sinais claros de que estamos mais conscientes da necessidade de cuidar do meio ambiente, de passar a nossos filhos e netos uma Terra menos poluída e mais cuidada (o uso de materiais recicláveis, a coleta seletiva do lixo, a preocupação com os mananciais são exemplos dessa tendência). Enquanto espécie, estamos mais dispostos a assumir nossa responsabilidade para com o outro, por mais distante e desconhecido que seja. Hoje, nos preocupamos mais do que no passado com a tarefa de garantir uma vida melhor no nosso planeta azul.
ARATANGY, Lidia Rosenberg. Claudia, São Paulo, Abril, jun. 2004, p. 148-151.
Apesar do eventual recrudescimento de preconceitos aqui e ali, estamos mais tolerantes para com as diferenças e as fraquezas humanas.
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