Questão
Simulado USP - FUVEST
2023
1ª Fase
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000270972
Também já fui brasileiro 

Eu também já fui brasileiro 
moreno como vocês. 
Ponteei viola, guiei forde 
e aprendi na mesa dos bares 
que o nacionalismo é uma virtude. 
Mas há uma hora em que os bares se fecham 
e todas as virtudes se negam. 

Eu também já fui poeta. 
Bastava olhar para mulher, 
pensava logo nas estrelas 
e outros substantivos celestes. 
Mas eram tantas, o céu tamanho, 
minha poesia perturbou-se. 

Eu também já tive meu ritmo. 
Fazia isto, dizia aquilo. 
E meus amigos me queriam, 
meus inimigos me odiavam. 
Eu irônico deslizava 
satisfeito de ter meu ritmo. 
Mas acabei confundindo tudo. 
Hoje não deslizo mais não, 
não sou irônico mais não, 
não tenho ritmo mais não.

Andrade, Carlos Drummond de, 1902-1987. Alguma poesia/ Carlos Drummond de Andrade; posfácio Eucanaã Ferraz — 1a ed. — São Paulo: Companhia das Letras, 2013.

O livro Alguma poesia marca uma fase importante da escrita de Carlos Drummond de Andrade, em que notadamente se percebe o descompasso entre o mundo e o sujeito, o que se nomeou gauchismo. No poema “Também já fui brasileiro”, uma das formas de demonstrar o desajuste se revela por meio da:
A
contradição entre o que o poeta é e aquilo que diz ser.
B
comunicação constante de uma certa brasilidade.
C
negação dos poetas românticos, que escreviam para mulheres.
D
diferença entre a natureza dos bares e a vivência do poeta. 
E
ironia construída no fato de o eu lírico ser estrangeiro.