Texto 8

Na planície avermelhada os juazeiros alargavam duas manchas verdes. Os infelizes tinham caminhado o dia inteiro, estavam cansados e famintos. [...] Arrastaram-se para lá, devagar, Sinhá Vitória com o filho mais novo escanchado no quarto e o baú de folha na cabeça, Fabiano sombrio, cambaio, o aió a tiracolo, a cuia pendurada numa correia presa ao cinturão, a espingarda de pederneira no ombro. O menino mais velho e a cachorra Baleia iam atrás.
Os juazeiros aproximaram-se, recuaram, sumiram-se. O menino mais velho pôs-se a chorar, sentou-se no chão.
– Anda, condenado do diabo, gritou-lhe o pai. Não obtendo resultado, fustigou-o com a bainha da faca de ponta. Mas o pequeno esperneou acuado, depois sossegou, deitou-se, fechou os olhos. Fabiano ainda lhe deu algumas pancadas e esperou que ele se levantasse. Como isto não acontecesse, espiou os quatro cantos, zangado, praguejando baixo.
A catinga estendia-se, de um vermelho indeciso salpicado de manchas brancas que eram ossadas. O voo negro dos urubus fazia círculos altos em redor de bichos moribundos.
– Anda, excomungado.
O pirralho não se mexeu, e Fabiano desejou matá-lo. Tinha o coração grosso, queria responsabilizar alguém pela sua desgraça. A seca aparecia-lhe como um fato necessário – e a obstinação da criança irritava-o. Certamente esse obstáculo miúdo não era culpado, mas dificultava a marcha, e o vaqueiro precisava chegar, não sabia onde.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 70. ed. São Paulo: Record, 1995. Excertos: p. 9-10

Texto 11
Chegou a desolação da primeira fome. Vinha seca e trágica, surgindo no fundo sujo dos sacos vazios, na descarnada nudez das latas raspadas. Mãezinha, cadê a janta? − Cala a boca, menino! Já vem! – Vem lá o quê!... Angustiado, Chico Bento apalpava os bolsos... nem um triste vintém azinhavrado... Lembrou-se da rede nova, grande e de listras que comprara em Quixadá por conta do vale de Vicente. Tinha sido para a viagem. Mas antes dormir no chão do que ver os meninos chorando, com a barriga roncando de fome. Estavam já na estrada do Castro. E se arrancharam debaixo dum velho pau-branco seco, nu e retorcido, a bem dizer ao tempo, porque aqueles cepos apontados para o céu não tinham nada de abrigo.
QUEIROZ, Rachel de. O Quinze. Rio de Janeiro: José Olympio Ed., s/d. Excertos: p. 33-35.
O Regionalismo encontrou espaço no Modernismo brasileiro com a publicação de romances que focam o cenário nordestino e a denúncia social. As narrativas regionalistas ressaltam questões sociais, como, por exemplo, a vida dos retirantes, a migração, a fome e a indústria da seca. Considerando as características do Regionalismo no Modernismo brasileiro, analise as proposições a seguir.
1. O Romance de 1930 reúne diversas obras de caráter social da segunda fase do Modernismo no Brasil. Graciliano Ramos e Rachel de Queiroz destacaram-se com obras que retrataram os movimentos migratórios dos nordestinos em consequência da seca. Os Textos 8 e 11 são representativos da prosa regionalista de 1930.
2. O Texto 8 revela a postura rude de Fabiano nas relações familiares, sobretudo, com o menino mais velho, como se pode notar nos seguintes trechos: " – Anda, condenado do diabo"; "Anda, excomungado"; "Fabiano desejou matá-lo"; "Tinha o coração grosso". Essa postura de Fabiano dialoga com as tensões entre o meio natural e o meio social, evidenciando a influência das mazelas da seca na construção psicológica da personagem.
3. Os Textos 9 e 10 priorizam linguagens não verbais diversificadas (xilogravura e pintura) e apresentam conexões intertextuais com as temáticas apresentadas nos Textos 8 e 11, entretanto, a xilogravura e a pintura têm preocupação meramente artística, sem foco na denúncia social.
4. O Texto 11 (O Quinze) evidencia a problemática social da fome em virtude da seca no Nordeste brasileiro. A obra de Rachel de Queiroz é marcada pelo impressionismo, com linguagem muito formal, repleta de vocabulário rebuscado.
Estão CORRETAS, apenas: