Questão
Universidade de Pernambuco - UPE
2011
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000141959
Texto A

Escrita como texto da cultura

Num primeiro momento é possível definir a escrita como manifestação gráfica de linguagem, particularmente da língua natural, que ocupa uma posição central dentre os sistemas na cultura. Graças à escrita é que se consagrou, no ocidente, a cultura letrada e o homem leitor. Ela não apenas permite aos homens se comunicarem uns com os outros, ou pelo menos possuir essa possibilidade de comunicação, mas também registra dados, pensamentos e ideias, dando forma a tudo o que era efêmero e intangível antes de ser fixado no papel. [...]

A escrita também é, como todos os outros textos da cultura, dotada de organização enquanto sistema e enquanto processo gerativo de linguagens. A multiplicidade de linguagens dentro do sistema é sua fonte de riqueza e renovação, fazendo com que textos escritos em uma mesma língua possam ser tão diversos e diferentes quanto uma pauta jornalística é de um poema. [...]

Mas é importante compreender que não escrevemos apenas com palavras. Escrevemos com gestos, com cores e com sons. Assim, a escrita, como texto da cultura, compreende não apenas a manifestação gráfica da língua natural, mas [também] os sentidos e as linguagens desenvolvidos por diferentes códigos. Como texto da cultura, a escrita é uma região de contato entre esses diferentes códigos, ao mesmo tempo em que está em constante interação com outros sistemas, textos e linguagens. Nesse contato, a escrita se caracteriza como uma fronteira não apenas por sua dinâmica no espaço cultural, mas também pela própria pluralidade de significados que ela abriga.

Certamente, a maior tecnologia que o homem cria a partir de sua própria fala é a escrita. Mas esta é uma questão polêmica. Para o filosofo inglês John Wilkins, a escrita pode ser posterior à fala com relação ao tempo, mas não com relação à sua natureza. Isso porque a escrita é um registro visual que provoca a leitura. Ora, o homem aprendeu a ler bem antes de aprender a escrever e até mesmo a falar. Basta lembrar que as primeiras formas visuais que os homens “leram” foram os rastros dos animais. O homem aprendeu a ler as constelações, os veios das pedras e das madeiras. Há uma lenda antiga que conta que os gregos costumavam rabiscar avisos nas pedras após o plantio, pedindo aos ratos do campo que não se aproximassem do terreno.

Contar a história da escrita é como contar a história das pessoas e de suas famílias: todas começam do mesmo jeito. E como começa a história da escrita? Começa com as inscrições em cavernas de povos muito antigos. Começa com os sumérios, os fenícios, os egípcios. Começa com as lendas, os pictogramas, os ideogramas. Começa com a transformação do som em palavra. Ou seja, a história da escrita é uma narrativa cheia de enigmas e de transformações. Confunde-se, muitas vezes, com episódios e fenômenos mágicos, sobretudo quando se pensa que o grande personagem dessa história é a palavra. Como a palavra, antes de ser escrita, existiu enquanto som, na fala, a transformação do som em palavra faz parte da história da escrita, que só se inicia de fato quando os sons da fala são expressos graficamente. [...]

Conhecer a história da escrita é andar por caminhos que se bifurcam, onde se cruzam e se misturam
muitas línguas e muitas linguagens.

(Semiosphera. USP. São Paulo. Disponível em <http.www.usp.br/semiosphera/escrita_como_texto_da cultura.html> Acesso em 2 set. 2010. Adaptado)

Apoiados no material linguístico com que o Texto A se constitui, podemos admitir as seguintes conclusões:

I. o texto deixa explícita sua condição de intertextualidade, como estratégia de emprestar apoio às suas afirmações, ainda mais que se trata de “uma questão polêmica”.

II. o contexto cultural previsto para a circulação do texto justifica o teor formal de sua linguagem, inclusivamente, o uso de um vocabulário mais distante do usual.

III. a função expressiva que predomina no Texto A se ajusta a seu caráter narrativo e condiciona o uso de uma linguagem marcada por impressões subjetivas.

IV. o texto exibe sinais de coesão entre os parágrafos, expressos não apenas por diferentes unidades de conexão (‘mas’, ‘além de’, ‘Eles’) mas também pela repetição de unidades do léxico.

V. o último parágrafo assume um teor de generalização, bem apropriado a um momento de ‘remate’ do texto, tanto mais que se trata da apresentação de considerações teóricas.

Estão CORRETAS as afirmações que constam apenas nos itens
A
I e II.
B
I, II e V.
C
I, IV e V.
D
II, III e IV.
E
I, II, IV e V.