Texto I: SENTIMENTO DO MUNDO
Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos,
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.
Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto,
morto o meu desejo, morto
o pântano sem acordes.
Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso,
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.
Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista
que habitavam a barraca
e não foram encontrados
ao amanhecer
esse amanhecer
mais noite que a noite.
Texto II:
OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO
Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor.
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram,
E as mãos tecem apenas o rude trabalho.
E o coração está seco.
Em vão mulheres batem à porta, não abrirás.
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes.
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.
Pouco importa venha a velhice, que é a velhice?
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda.
Alguns, achando bárbaro o espetáculo,
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem.
A vida apenas, sem mistificação.
(CARLOS DRUMOND DE ANDRADE. “Sentimento do Mundo”. IN.:Nova Reunião: 19 livros de poesia. 1ª edição. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1983, páginas 64 e 78)
I- Ambos os textos, pelo engajamento da voz poética, enquadram-se, explicitamente, na segunda fase da trajetória poética de Carlos Drummond de Andrade referida na nota introdutória.
II- No texto I, os versos “humildemente vos peço/ que me perdoeis” (terceira estrofe) podem ser entendidos como uma mea culpa, uma autocrítica do poeta por mostrar-se, até então, alienado das ocorrências presentes no contexto histórico ao seu redor.
III- Embora o tom predominante, no texto I, seja de pessimismo diante de um mundo caótico marcado pela destruição provocada pela guerra, o poema se encerra com acentuado otimismo por parte da voz poética.