Questão
Universidade José do Rosário Vellano – UNIFENAS
2019
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000202452
Texto I: SENTIMENTO DO MUNDO

Tenho apenas duas mãos
e o sentimento do mundo,
mas estou cheio de escravos, 
minhas lembranças escorrem
e o corpo transige
na confluência do amor.

Quando me levantar, o céu
estará morto e saqueado,
eu mesmo estarei morto, 
morto o meu desejo, morto
o pântano sem acordes.

Os camaradas não disseram
que havia uma guerra
e era necessário
trazer fogo e alimento.
Sinto-me disperso, 
anterior a fronteiras,
humildemente vos peço
que me perdoeis.

Quando os corpos passarem,
eu ficarei sozinho
desfiando a recordação
do sineiro, da viúva e do microscopista 
que habitavam a barraca
e não foram encontrados 
ao amanhecer

esse amanhecer 
mais noite que a noite.

Texto II: 

OS OMBROS SUPORTAM O MUNDO 

Chega um tempo em que não se diz mais: meu Deus.
Tempo de absoluta depuração.
Tempo em que não se diz mais: meu amor. 
Porque o amor resultou inútil.
E os olhos não choram,
E as mãos tecem apenas o rude trabalho. 
E o coração está seco.

Em vão mulheres batem à porta, não abrirás. 
Ficaste sozinho, a luz apagou-se,
Mas na sombra teus olhos resplandecem enormes. 
És todo certeza, já não sabes sofrer.
E nada esperas de teus amigos.

Pouco importa venha a velhice, que é a velhice? 
Teus ombros suportam o mundo
e ele não pesa mais que a mão de uma criança.
As guerras, as fomes, as discussões dentro dos edifícios 
provam apenas que a vida prossegue
e nem todos se libertaram ainda. 
Alguns, achando bárbaro o espetáculo, 
prefeririam (os delicados) morrer.
Chegou um tempo em que a vida é uma ordem. 
A vida apenas, sem mistificação.

(CARLOS DRUMOND DE ANDRADE. “Sentimento do Mundo”. IN.:Nova Reunião: 19 livros de poesia. 1ª edição. Livraria José Olympio Editora, Rio de Janeiro, 1983, páginas 64 e 78)

I- Ambos os textos, pelo engajamento da voz poética, enquadram-se, explicitamente, na segunda fase da trajetória poética de Carlos Drummond de Andrade referida na nota introdutória.

II- No texto I, os versos “humildemente vos peço/ que me perdoeis” (terceira estrofe) podem ser entendidos como uma mea culpa, uma autocrítica do poeta por mostrar-se, até então, alienado das ocorrências presentes no contexto histórico ao seu redor.

III- Embora o tom predominante, no texto I, seja de pessimismo diante de um mundo caótico marcado pela destruição provocada pela guerra, o poema se encerra com acentuado otimismo por parte da voz poética.
A
I, II e III – corretos.
B
I e II – corretos; III- incorreto.
C
I- correto; II e III – incorretos.
D
I e II- incorretos; III - correto.
E
I – incorreto; II e III- corretos.