Questão
Universidade Estadual do Maranhão - UEMA - UEMA SUL
2014
2ª Fase
4000073499
Discursiva
Texto I 

 O garimpo acordava às três horas da manhã para a faina de bater água, drenar os buracos de lavra para que estivessem secos quando o dia clareasse. Era a lamparina do lado, as latas, o encher e o derramar para que, com o sol, as areias pudessem ser bateadas no poço esvaziado. 

 Os primeiros sinais do reboliço do formigueiro de homens eram, na escuridão, o vermelho das brasas, o fogo das trempes para ferver água para o café, que era passado no bule de ferro amassado e servia para o dia inteiro. [...] A lamparina de morrão era a primeira luz [...] Todos obedeciam ao mesmo ritmo. Ao levantar, o café com farinha de puba ou cuscuz de arroz e, de bucho forrado, era pegar a lata, os apetrechos do trabalho para começar o dia. [...] 

Celestino Gouveia era o capataz de Cleto Bonfim. Nunca sentiu qualquer sombra de medo. Era quase um bicho. Tinha seus homens de confiança e juntos vigiavam as equipes. Fiscalizavam os veios de culote e botas, chicote na mão, armas na cintura dia e noite. Por cada ladrão que encontrassem, recebiam a metade do furto em seu poder. Era a lei da casa. Os costumes do garimpo são feitos na hora, pelo medo e pelo sangue. [...] 
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Nessa noite, Cleto Bonfim, da região do Calçoene, estava ali. Era noite de festa grande. A noite era de grande alegria. Já subira a euforia do vinho, a música era frenética, as mesas turbulentas e começou o leilão das mulheres. Saraminda entrou no tablado com passos seguros e um jeito de quem fazia teatro. Não esperou ofertas. Sem pensar nos amores passados, resoluta e desinibida, avançou no rumo da audiência e levantou a mão direita, com o indicador para cima, e avisou: 

− Não sou do leilão. Sou de Cleto Bonfim. Vou com ele e quero ser dele. Eu sei onde ele está e de minha parte o leilão está resolvido. Cleto, na sua mesa, ficou tomado de grande espanto e replicou com arrogância: 

− Não aceito mulher que se oferece. Quero escolher e sempre escolhi bem. 

− Não sou mulher que se oferece. Já escolhi. Sou sua, Bonfim. 

− Mulher, de onde você tirou essa história de jogar-se para o meu lado? - disse Bonfim, do meio do salão. − Não pergunte o que não se pode perguntar - disse Saraminda. E adiantou: - Não sei por quê, mas meu desejo é esse — e trocou de tática, transformou-se em tímida, amaciou a voz, concluindo melosa — quero ir ao seu garimpo, junto... contigo. 

Fonte: SARNEY, José. Saraminda. São Paulo: Siciliano, 2000. (adaptado) 

Leia o seguinte trecho. 

“— Não pergunte o que não se pode perguntar - disse Saraminda. E adiantou: - Não sei por quê, mas meu desejo é esse e - trocou de tática, transformou-se em tímida, amaciou a voz, concluindo melosa - quero ir ao seu garimpo, junto... contigo...” 

a) A fala de Saraminda não segue a recomendação da norma padrão da língua. Explique como esse desvio contribui para a caracterização da personagem. 

b) Retire as expressões que comprovam, respectivamente, dois aspectos da personalidade de Saraminda.