Questão
Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC Campinas
2020
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000157683
Texto I

Avôs

Fila de banco. Dois senhores com ar distinto, um atrás do outro. Os dois engravatados, respeitabilíssimos. O senhor de trás nota um desenho colorido nas costas da mão do senhor da frente e pergunta:

− Neto?

− Neta − diz o outro.

− Eu também − diz o primeiro, mostrando um desenho nas costas da própria mão.

− Ela diz que é uma borboleta. Eu não acho nada parecido com uma borboleta, mas vou discutir com ela?

− A minha insiste que isto é um gato de chapéu, e não quer ouvir o contrário.

− Não aceitam críticas.

− A sua pinta o seu rosto também?

− Pinta. Diz que é maquiagem. Há dias eu estava dormindo a sesta e quando acordei estava com o rosto todo pintado. Pó, batom, blush, tudo que ela pega da mãe dela.

− A minha só usa o batom. Mas passa batom em todo o meu rosto, menos nos lábios.

− Não é formidável?

− É fantástico.

− Vou confessar uma coisa. Eu não sabia o que era a felicidade até o dia em que minha neta desenhou cabelos na minha careca com tinta preta. Foi um escândalo em casa. Mas como, sujando a cabeça do vovô desse jeito?! Ela explicou que era para tapar a careca, para o vovô ficar mais bonito. Botaram ela de castigo, ameaçaram jogar fora as suas tintas, foi uma choradeira só. E eu feliz da vida. Olhe só, ainda tem um resto de tinta aqui...

− Elas são maravilhosass...

− Mas depois crescem.

− Tem isso. Crescem depressa demais. Começam a achar avô chato...

− Eu me vejo daqui a poucos anos andando atrás da minha e pedindo: “Não quer pintar a mão do vovô?”

− É. “Pinta o rosto do vovô de palhaço, pinta.”

− Vamos ter que pedir por favor.

− E elas nada. E daqui a pouco são umas mulheres feitas...

− A verdade é que ser avô dura muito pouco.

− Muito. Temos que aproveitar o momento, que passa rápido. Aproveitar antes que desbote.

− Como uma pintura na mão.

− Isso. Olha, acho que aquele guichê ficou livre.

− Vou lá. Muito prazer, viu?

− Prazer. 

(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O Estado de S. Paulo, 03.06.2012)

Texto II



Considerados os textos reproduzidos, comenta-se com correção: 
A
A diferença de tom entre os textos I e II justifica-se pela finalidade com que foram produzidos: a crônica, bem-humorada, ocupa-se de divertir o leitor, enquanto a charge, grave, tem função moralizante.
B
É característica do gênero a que pertence o texto I a não pretensão de durar, como o comprova o fato de a crônica ser veiculada em jornais ou revistas, produções efêmeras por natureza.
C
Em I, a narração em primeira pessoa confere maior realismo às cenas, na medida em que o leitor tem acesso direto aos pensamentos dos personagens, reproduzidos em discurso direto.
D
A estrutura do diálogo em I sugere que a interação entre os avôs se dá por meio de forte identificação, tendo em vista que um personagem completa a fala do outro, expressando concordância.
E
A falta de uma sequência linear na disposição dos desenhos em II permite que as falas dos personagens sejam lidas em ordem aleatória sem que haja prejuízo do sentido da charge.