Texto I

Avôs
Fila de banco. Dois senhores com ar distinto, um atrás do outro. Os dois engravatados, respeitabilíssimos. O senhor de trás nota um desenho colorido nas costas da mão do senhor da frente e pergunta:
− Neto?
− Neta − diz o outro.
− Eu também − diz o primeiro, mostrando um desenho nas costas da própria mão.
− Ela diz que é uma borboleta. Eu não acho nada parecido com uma borboleta, mas vou discutir com ela?
− A minha insiste que isto é um gato de chapéu, e não quer ouvir o contrário.
− Não aceitam críticas.
− A sua pinta o seu rosto também?
− Pinta. Diz que é maquiagem. Há dias eu estava dormindo a sesta e quando acordei estava com o rosto todo pintado. Pó, batom, blush, tudo que ela pega da mãe dela.
− A minha só usa o batom. Mas passa batom em todo o meu rosto, menos nos lábios.
− Não é formidável?
− É fantástico.
− Vou confessar uma coisa. Eu não sabia o que era a felicidade até o dia em que minha neta desenhou cabelos na minha careca com tinta preta. Foi um escândalo em casa. Mas como, sujando a cabeça do vovô desse jeito?! Ela explicou que era para tapar a careca, para o vovô ficar mais bonito. Botaram ela de castigo, ameaçaram jogar fora as suas tintas, foi uma choradeira só. E eu feliz da vida. Olhe só, ainda tem um resto de tinta aqui...
− Elas são maravilhosass...
− Mas depois crescem.
− Tem isso. Crescem depressa demais. Começam a achar avô chato...
− Eu me vejo daqui a poucos anos andando atrás da minha e pedindo: “Não quer pintar a mão do vovô?”
− É. “Pinta o rosto do vovô de palhaço, pinta.”
− Vamos ter que pedir por favor.
− E elas nada. E daqui a pouco são umas mulheres feitas...
− A verdade é que ser avô dura muito pouco.
− Muito. Temos que aproveitar o momento, que passa rápido. Aproveitar antes que desbote.
− Como uma pintura na mão.
− Isso. Olha, acho que aquele guichê ficou livre.
− Vou lá. Muito prazer, viu?
− Prazer.
(Adaptado de: VERISSIMO, Luis Fernando. O Estado de S. Paulo, 03.06.2012)
Texto II

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