Texto I
Infâncias e crianças
Os conceitos de infância podem apresentar diferentes significados, conforme os referenciais que utilizarmos. A palavra infância evoca um período que se inicia com o nascimento e termina com a puberdade. O Estatuto da Criança e do Adolescente designa criança toda pessoa até 12 anos de idade incompletos. Pode-se, assim, observar que no quadro legal brasileiro prioriza-se uma definição de criança pelo critério etário e pelo aspecto biológico.
Pinto & Sarmento (1997), ao discutirem a respeito do limite etário para a definição do ser criança, destacam a inexistência de um consenso. Há investigações e estudos que enfatizam a condição da criança como sujeito de direitos desde a vida intrauterina.
Segundo os autores, as dificuldades quanto ao consenso de limites etários da infância se intensificam quando a discussão se refere ao limite etário para deixar de ser criança. A esse respeito, a Convenção dos Direitos da Criança, de 1989, considera criança todo ser humano até 18 anos, estabelecendo o fim da infância no período de conquista dos direitos cívicos, como o direito ao voto.
Além de encontrarem respaldo no campo legal, os limites da infância apoiam-se também em tradições culturais. Para algumas etnias e culturas, a puberdade é considerada o fim da infância e início da vida adulta. Os níveis ou ciclos de escolaridade também são possíveis fronteiras para demarcação da infância.
Texto adaptado de ANDRADE, Lucimary Bernabé Pedrosa de. Tecendo os fi os da infância. In: Educação infantil: discurso, legislação e práticas institucionais [online]. São Paulo: UNESP; São Paulo: Cultura Acadêmica, 2010. p. 193. Disponível em: <http://books.scielo.org/id/h8pyf/pdf/andrade-9788579830853-06.pdf>. Acesso em: 11 ago. 2018.
Texto II
As crianças são seres sociais, têm uma história, pertencem a uma classe social, estabelecem relações segundo seu contexto de origem, têm uma linguagem, ocupam um espaço geográfico e são valorizadas de acordo com os padrões do seu contexto familiar e com a sua própria inserção nesse contexto. Elas são pessoas, enraizadas num todo social que as envolve e que nelas imprime padrões de autoridade, linguagem, costumes. Essa visão de quem são as crianças — cidadãos de pouca idade, sujeitos sociais e históricos, criadores de cultura — é condição para que se atue no sentido de favorecer seu crescimento e constituição. [...]
Reconhecer na infância sua especificidade - sua capacidade de imaginar, fantasiar e criar - exige que muitas medidas sejam tomadas. Entender que as crianças têm um olhar crítico que vira pelo avesso a ordem das coisas, que subverte o sentido da história, requer que se conheçam as crianças, o que fazem, de que brincam, como inventam, de que falam. Nesta concepção de infância, história e linguagem são dimensões importantes de humanização: há uma história a ser contada porque há uma infância do homem. Se compreendermos as crianças, compreenderemos melhor nossa época, nossa cultura, a barbárie e as possibilidades de transformação.
KRAMER, Sonia. O papel social da educação infantil. Revista Textos do Brasil, Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 1999. Disponível em:<http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/mre000082.pdf>. Acesso em: 11 ago.2018.
Texto III
Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho
Da aurora da minha vida,
Da minha infância querida
Que os anos não trazem mais!
Que amor, que sonhos, que flores,
Naquelas tardes fagueiras
À sombra das bananeiras,
Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias
Do despontar da existência!
– Respira a alma inocência
Como perfumes a flor;
O mar é – lago sereno,
O céu – um manto azulado,
O mundo – um sonho dourado,
A vida – um hino d’amor!
Que aurora, que sol, que vida,
Que noites de melodia
Naquela doce alegria,
Naquele ingênuo folgar!
O céu bordado d’estrelas,
A terra de aromas cheia
As ondas beijando a areia
E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância!
Oh! meu céu de primavera!
Que doce a vida não era
Nessa risonha manhã!
Em vez das mágoas de agora,
Eu tinha nessas delícias
De minha mãe as carícias
E beijos de minha irmã!
Livre filho das montanhas,
Eu ia bem satisfeito,
Da camisa aberta o peito,
– Pés descalços, braços nus –
Correndo pelas campinas
À roda das cachoeiras,
Atrás das asas ligeiras
Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos
Ia colher as pitangas,
Trepava a tirar as mangas,
Brincava à beira do mar;
Rezava as Ave-Marias,
Achava o céu sempre lindo.
Adormecia sorrindo
E despertava a cantar!
[...]
ABREU, Casimiro de. In Clássicos da poesia brasileira. Rio de Janeiro: O Globo, 1997, p.114-5.
Texto IV
Meus oito anos
Oh que saudades que eu tenho
Da aurora de minha vida
Das horas
De minha infância
Que os anos não trazem mais
Naquele quintal de terra
Da Rua de Santo Antônio
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
Eu tinha doces visões
Da cocaína da infância
Nos banhos de astro-rei
Do quintal de minha ânsia
A cidade progredia
Em roda de minha casa
Que os anos não trazem mais
Debaixo da bananeira
Sem nenhum laranjais
ANDRADE, Oswald de. Poesias reunidas. São Paulo: Círculo do Livro, 1976, p.179-180.
Texto V
A fantasia infantil é imprevisível. De tanto ouvir falar no nome Europa, julguei ser um bairro contíguo a Copacabana que conheceria em breve.
Eu falava da Europa com familiaridade, sem os pais me corrigirem, apontando-me o equívoco geográfico. Sobretudo porque se tratava de um continente algumas vezes maior que o Rio de Janeiro e com significado especial para nós, que viéramos da minúscula Galícia.
Para esta infância, sediada em Vila Isabel, o mundo era simples. O próprio Brasil não carecia de definições, não fazia falta atribuir-lhe uma dimensão quimérica. Circulava entre os vizinhos a medida de uma felicidade segundo a qual a vida do lar bastava e o modelo de perfeição relativo à pátria não passava de uma visão utópica.
O fabulário geral restringia-se à família, ao trabalho, à compra da casa própria, às conversas no quintal e em torno da mesa, ao sexo furtivo, longe do lar. Os folguedos de domingo, neste Brasil ingênuo, limitavam-se à praça, ao sorvete, ao cachorro-quente, aos programas de rádio, ao futebol, ao bar, sobre cujas mesas se iam acumulando as garrafas vazias de cerveja, como prova de prosperidade. Hábitos modestos que, conquanto motivassem orgulho pessoal e familiar, não disfarçavam a pobreza sociocultural que o Brasil não queria corrigir.
Já os transtornos, havidos na área do coração, faziam parte da felicidade dissimulada. Cada qual, ao intuir que o trato com o outro exigia cautela, escondia seus dramas e frustrações no varal de roupa, para secá-los ao sol, junto aos lençóis. Assim, a alegria e o calvário pertenciam ao ideário privado de cada indivíduo.
A infância, porém, protegia-me dos percalços da realidade. Já pela manhã, tinha o café, pão, leite, queijo e manteiga na mesa. A rotina da casa em Vila Isabel prevalecia em meio ao temor do futuro. A família espanhola regia o cotidiano com o propósito de prosperar, deixando escassa margem para a improvisação.
PIÑON, Nélida. Coração andarilho. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 53-4.
a) Reescreva a frase abaixo, adaptada do Texto I, iniciando-a por “O critério etário e o aspecto biológico”. Faça as modificações necessárias.
No quadro legal brasileiro, prioriza-se a definição de criança pelo critério etário e pelo aspecto biológico.
b) Identifique o referente do termo sublinhado na frase a seguir:
Cada qual, ao intuir que o trato com o outro exigia cautela, escondia seus dramas e frustrações no varal de roupa, para secá-los ao sol, junto aos lençóis. (5º parágrafo – Texto V)
c) Reescreva a frase abaixo, retirada no Texto V, substituindo o pronome “eu” por “ela”. Faça as modificações necessárias.
“Eu falava da Europa com familiaridade, sem os pais me corrigirem, apontando-me o equívoco geográfico.”