Texto I

Memórias de um sargento de milícias
Era o tempo do rei
Quando aqui chegou
Um modesto casal feliz pelo recente amor
Leonardo, tornando-se meirinho
Deu a Maria Hortaliça um novo lar
Um pouco de conforto e de carinho
Dessa união, nasceu
Um lindo varão
Que recebeu o mesmo nome do seu pai
Personagem central da história que contamos neste carnaval
Mas um dia Maria
Fez a Leonardo uma ingratidão
Mostrando que não era uma boa companheira
Provocou a separação
Foi assim que o padrinho passou
A ser do menino tutor
A quem lhe deu toda dedicação
Sofrendo uma grande desilusão
Outra figura importante em sua vida
Foi a comadre parteira popular
Diziam que benzia de quebranto
A beata mais famosa do lugar
Havia nesse tempo aqui no Rio
Tipos que devemos mencionar
Chico Juca era mestre em valentia
E por todos se fazia respeitar
O reverendo amante da cigana
Preso pelo Vidigal
O justiceiro
Homem de grande autoridade
Que à frente de seus granadeiros
Era temido pelo povo da cidade
Luisinha primeiro amor
Que Leonardo conheceu
E que Dona Maria, a outro como esposa concedeu
Somente foi feliz
Quando José Manuel
Morreu
Nosso herói
Novamente se apaixonou
Quando com sua viola
A mulata Vidinha esta singela modinha cantou:
Se os meus suspiros pudessem
Aos seus ouvidos chegar
Verias que uma paixão
Tem o poder de assassinar
VIOLA, Paulinho da; VILA, Martinho da. Memórias de um sargento de milícias. Victor Estéreo, 1966. Faixa 11.
Texto II
O nosso Leonardo, embora desprovido de paixão, tem sentimentos mais sinceros neste terreno, e em parte, o livro é a história do seu amor cheio de obstáculos pela sonsa Luisinha, com quem termina casado, depois de promovido, reformado e dono de cinco heranças que lhe vieram cair nas mãos sem que movesse uma palha. Não sendo nenhum modelo de virtude, é leal e chega a comprometer-se seriamente para não lesar o malandro Teotoninho Sabiá.
CANDIDO, Antonio. Dialética da malandragem (caracterização das Memórias de um sargento de milícias). In: Revista do Instituto de Estudos Brasileiros, n. 8, São Paulo, USP, 1970, p. 67-89.
Texto III
Homenagem ao malandro
Eu fui fazer um samba em homenagem à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais. Eu fui à Lapa e perdi a viagem, que aquela tal malandragem não existe mais. Agora já não é normal, o que dá de malandro regular profissional, malandro com o aparato de malandro oficial, malandro candidato a malandro federal, malandro com retrato na coluna social; malandro com contrato, com gravata e capital, que nunca se dá [mal. Mas o malandro para valer, não espalha, aposentou a navalha, tem mulher e filho e tralha e tal. Dizem as más línguas que ele até trabalha, mora lá longe e chacoalha, no trem da Central.
HOLANDA, Chico Buarque de. Ópera do malandro. Universal Music, 1978. Faixa 9.
Texto IV

Representação do Malandro. Disponível em: <http://1.bp.blogspot.com/malandro.JPG&imgrefull/Katiarochags.br>. Acesso em: 11 nov. 2009.
A letra de Paulinho da Viola foi samba-enredo da Portela em 1966 e conta a história de Leonardo, personagem de Memórias de um sargento de milícias. Já a canção de Chico Buarque presta uma homenagem ao malando carioca. Considerando os trechos “personagem central da história que contamos neste carnaval” e “à nata da malandragem, que conheço de outros carnavais”, respectivamente, das canções de Paulinho da Viola e de Chico Buarque, explique os sentidos construídos pelo uso das expressões “neste carnaval” e “outros carnavais”.