Textos 3 e 4
Texto 3
Olhando então com mais cuidado para a praia, vi umas criaturas semelhantes a macacos, que andavam muito eretas e apontavam para nós. Porém, conforme a luz do dia a tudo ia clareando, pude ver que não eram animais e sim oito ou nove homens pintados de carmim e preto, e armados de arcos e flechas. E aconteceu que hoje vieram algumas mulheres, todas com cabelos muito pretos e compridos, pintadas com aquela tintura e nuas como Eva, mas disso não faziam conta. Quando as vimos, acendeu-se em nós o natural lume da luxúria e por mais que quiséssemos parecer sisudos, não podíamos deixar de muito olhar para as suas ancas e também para os seus peitos. Eram limpas e tinham suas partes altas e bem cerradinhas. Os rostos não eram bons, mas ainda assim havia gosto em olhar para elas.
TORERO, J. R. & PIMENTA, M. A. Terra Papagalli. Rio de Janeiro: Objetiva, 2000. Fragmento.
Texto 4
A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes. Bem feitos. Andam nus, sem cobertura alguma. Não fazem o menor caso de encobrir ou de mostrar suas vergonhas; e nisso têm tanta inocência como em mostrar o rosto. [...] Ali andavam entre eles três ou quatro moças, bem moças e bem gentis, com cabelos muito pretos e compridos pelas espáduas, e suas vergonhas tão altas, tão cerradinhas e tão limpas das cabeleiras que, de as muito bem olharmos, não tínhamos nenhuma vergonha.
CAMINHA, P. V. Carta a el-rei Dom Manuel sobre o achamento do Brasil. 1º de maio de 1500. Lisboa: Imprensa Nacional – Casa da Moeda, 1974. Fragmento.
Com base nas informações presentes nos Textos 3 e 4, analise as seguintes afirmativas.
I. No Texto 3, observa-se que Torero e Pimenta retornam, em tom jocoso, às origens dos desmandos do descobrimento do Brasil; nesse caso, há uma alusão a um trecho da história – um dos encontros com os índios – contado por Caminha, e os narradores da terra dos papagaios o fazem, valendo-se da visão de CosmeFernandes, com base nos registros em que o degredado deixa para seu filho, Vasco Brandão, o Conde de Ourique.
II. No Texto 3, observa-se uma narração da história do Brasil, em tom humorístico, direcionada a especialistas em linguagem do século XVI. Cenas de humor com fatos históricos se intercalam ao longo do livro o qual foi estruturado em formato de carta do Bacharel ao Conde de Ourique, missivista português, da época de el - Rei, Dom Manuel I.
III. Nos Textos 3 e 4, é perceptível a relação intertextual por meio da paródia, o que se observa no trato com que Torero e Pimenta, autores do primeiro, retomam as notícias da Carta, e, embora eles deem a mesma abrangência ao tema tratado, fazem-no com ironia, sobretudo quando se referem às descrições reservadas à figura do índio.
IV. O Texto 3 faz alusões muito relevantes à história do Brasil (embora de modo extremamente sintético), como o fez Caminha, no Texto 4, portanto, o que se vê em Terra Papagalli, uma narrativa epistolar de caráter épico, é apenas uma associação ao episódio do encontro dos portugueses com as índias, por ocasião da chegada deles a terras brasileiras.
V. Por ser uma prosa poética, Terra Papagalli mistura a linguagem conotativa e formal de Cosme Fernandes, personagem central, à linguagem denotativa e informal de Caminha, usada pelo missivista em a Carta. É dessa mistura que resulta a expressividade do Texto 3, a qual se destaca também pelo fato de os autores tornarem o papagaio, referendado já no título, como objeto da identidade nacional.
Está CORRETO, apenas, o que se afirma em