O Vasconcelos quis festejar o exame do filho, com um jantar oferecido aos senhores examinadores e aos velhos amigos da família.
À noite houve dança. Amâncio convidou os companheiros do ano; compareceram somente os pobres – os que não tinham em casa também a sua festa.
O pai, por instâncias de Ângela, fizera-lhe presente de um relógio com a competente cadeia, tudo de ouro. A avó, que se abalara da fazenda para assistir ao regozijo do seu querido mimalho, trouxera-lhe de presente um moleque, o Sabino.
Amâncio, todo cheio de si, a rever-se na sua corrente e a consultar as horas de vez em quando, foi nesse dia o alvo de mil felicitações, de mil brindes e de mil abraços.
Alguns amigos do pai profetizavam nele uma glória da pátria e diziam que o João Lisboa, o Galvão e outros não tinham tido melhor princípio.
O Dr. Silveira, homem íntimo da casa e figura conhecida na política da terra, voltara-se rapidamente para dar atenção a Amâncio, que acabava de aproximar-se, em silêncio, com o ar presumido de quem tinha consciência de que toda aquela festa lhe pertencia.
– Então, meu estudante! – disse o jurisconsulto, empinando a cabeça. – Já escolheu a carreira que deseja seguir?
– Marinha, respondeu Amâncio secamente.
A farda seduzia-o. Nada conhecia “tão bonito” como um oficial de marinha.
À meia-noite foram todos de novo para a mesa. Vasconcelos era muito rigoroso quando recebia gente em casa; queria que houvesse toda a fartura de vinhos e comidas. Os brindes reapareceram. Visivelmente orgulhoso, o anfitrião se superava. Abriram-se garrafas de Moscato d’Asti, Chateau Yquem e Champagne.
Do meio para o fim da ceia, Amâncio sentiu-se outro.
Ângela abraçou o filho, chorando de comovida.
– Que lhe disse eu?... resmungou delicadamente Silveira ao ouvido dela. – Este menino promete! Deem-lhe asas e hão de ver... deem-lhe asas!...
Amâncio foi coberto de ovações. Batiam-se no copo, faziam-lhe saúdes. Ele a todos respondia, rindo e bebendo.
Daí a uma hora recolheram-no à cama da mãe, porque lhe aparecera uma aflição na boca do estômago; mas vomitou logo e adormeceu depois, completamente aliviado.
Foi a sua primeira bebedeira.
(Aluísio Azevedo. Casa de pensão. Adaptado.)