"Tudo quanto vive, vive porque muda; muda porque passa; e, porque passa, morre.
Tudo quanto vive perpetuamente se torna outra coisa, constantemente se nega, se furta à vida."
(Fernando Pessoa)
O mate do João Cardoso
João Simões Lopes Neto
Pois, como dizia: não passava andante pela porta ou mais longe ou mais distante, que o velho João Cardoso não chamasse, risonho, e renitente como mosca de ramada; e aí no mais já enxotava a cachorrada, e puxando o pito de detrás da orelha, pigarreava e dizia:
—Olá! Amigo! Apeie-se; descanse um pouco! Venha tomar um amargo! É um instantinho... crioulo?! ...
O andante, agradecido à sorte, aceitava...menos algum ressabiado, já se vê.
—Então que há de novo? (E para dentro de casa, com uma voz de trovão, ordenava: –Oh! crioulo! Traz mate!)
E já se botava na conversa, falava, indagava, pedia as novas, dava as que sabia; ria-se, metia opiniões, aprovava umas cousas, ficava buzina com outras...
E o tempo ia passando. O andante olhava para o cavalo, que já tinha refrescado; olhava para o sol que subia ou descambava...e mexia o corpo para levantar-se.
—Bueno! São horas, seu João Cardoso; vou marchando!...
—Espere, homem! Só um instantinho! Oh! Crioulo, olha esse mate!
E retomava a chalra. Nisto o crioulo já calejado e sabido, chegava-se-lhe manhoso e cochichava-lhe no ouvido:
—Sr., não tem mais erva!...
—Traz dessa mesma! Não demores, crioulo!...
E o tempo ia correndo, como água de sanga cheia.
[...]
Entre o pensamento de Fernando Pessoa e o excerto do conto de Simões Lopes Neto – O mate do João Cardoso – existe uma intertextualidade implícita (relativa ao tema). Identifique essa característica dentre as alternativas abaixo.