Uma literatura de sangue, suor, lágrimas e idéias
Já me perguntaram por que, em meus textos, pareço pegar no pé de autores que praticam pós- modernismos. Pois bem. Eu realmente tenho um problema com isso. Não com a literatura pós-moderna em si – gosto de vários escritores que, mal e mal, se encaixam no rótulo –, e, sim, com os “truques” lingüísticos e estruturais que às vezes acompanham o gênero. Um trabalho tão excessivo no uso da linguagem que a narrativa em si, além dos personagens, fica em segundo plano. Tanta pirotecnia acaba por tornar o texto vazio, cerebral demais e sem a emoção para fazer um fundamental contraponto.
Eu acho que há um limite. Um ponto imaginário que os autores deveriam mirar: até esse ponto, a experimentação não só é bem-vinda como se faz necessária. O problema é que muitas vezes esse ponto- limite é ultrapassado, o que resulta em obras mais semelhantes a experiências que agradam apenas ao próprio criador delas, não provocando prazer algum no leitor. O leitor. Ele não deveria ser a parte mais importante do processo, afinal? (...)
Inútil dizer que as teorias de que “o romance está morto” pululam a todo momento por aí. Com cinema, televisão e internet, quem vai ter tempo para se dedicar a uma leitura de 500 páginas? Se isso é verdade, imagine um cidadão médio lendo 500 páginas de um tratado pós- moderno, um daqueles que exigem um guia para explicar a multiplicidade de referências.
Eu acho o contrário: esta é uma época propícia para o romance, e a literatura deve falar sobre a nossa vida, sobre o modo como vivemos hoje, registrando para as próximas gerações um entendimento do que passou. É por acreditar nisso que critico as tais pirotecnias, nada atraentes a não-leitores. É preciso recuperar o principal aspecto da literatura, o prazer de sermos outros naquelas páginas, e ao mesmo tempo nos vermos ali. (...)
Não estou pregando um retorno à maneira como se escreviam romances há cento e poucos anos atrás. Seria patético escrever como Machado de Assis ou Tchekhov no século XXI. E também não se trata de fazer apenas realismo: a quantos exemplos podemos recorrer de obras alegóricas ou fantásticas que nos fizeram e fazem entender melhor a condição humana? Kafka, Gogol, Rulfo, vários, vários. Em suma, o essencial é atingir o ponto-limite que comentei acima, entre o experimentalismo e a legibilidade, entre o cerebral e o emocional. Uma literatura de sangue, suor, lágrimas – e idéias, pois sim. (...)
Não peço que a literatura tome uma posição central na vida humana contemporânea. Pelo contrário. Seu lugar é o da poltrona sob o abajur. Na cabeceira, antes do sono. No ônibus, já que precisamos agüentar os engarrafamentos. Não como pregação política-pública ou um fenômeno coletivo; apenas a transformação particular, pessoal e intransferível que um livro pode provocar com sangue, suor, lágrimas e idéias, diferente para cada leitor. Uma silenciosa e necessária revolução.
(Jonas Lopes. Texto disponível em www.digestivocultural.com.Acesso em 17/09/2007. Adaptado.)
A análise da concordância verbal e nominal realizada no Texto 1 nos permite afirmar corretamente que: