Questão
Pontifícia Universidade Católica de Campinas - PUC Campinas
2017
Fase Única
VER HISTÓRICO DE RESPOSTAS
4000155325
O que segue é o início do romance Quarenta Dias, de Maria Valéria Rezende, que narra a história de Alice, professora aposentada que vivia em João Pessoa até ser forçada pela filha a deixar tudo para trás e se mudar para Porto Alegre.

Não pergunte por que lhe escrevo. Escrevo porque as as palavras estão aí, como a cidade, a noite, a chuva, o rio, diante de mim, dentro de mim, uma torrente de palavras que não me cumprem. 

(Marília Arnaud)

Sei, agora, por que cismei de trazer na bagagem este caderno vazio, trezentas folhas amareladas, com essa Barbie na capa de moldura cor-de-rosa, sabe-se lá de quem era nem como se extraviou na minha casa. Quando Norinha era menina acho que ainda nem existiam esses cadernos da Barbie. [...] Cismei com ele e pronto. Porque eu quero! Por mais que a fúria organizadora da prima Elizete tentasse botá-lo no monte de velharias, quase lixo, para vender na tal “garage sale”* que aprendeu com a filha que foi morar nos Estados Unidos e inventou de fazer com meus trastes. 

Minha filha disse O que é isso, mãe? Parece que virou uma velhota sentimental, com esse apego a coisas completamente ultrapassadas. Pronto. Foi o que bastou pra Elizete pegar a deixa e pôr as mãos na massa, esvaziar gavetas e estantes, separar roupas que Vixe, Alice, só servem mesmo pra brechó, ou nem isso, uma velharia! [...] A última peça a sair de minha casa foi a cadeira de balanço [...] onde eu tinha arriado pra ficar, amuada, assistindo ao rebuliço, à derrocada da minha vida tão boinha, e só pensando que, graças a Deus, não tinha ainda posto em prática a decisão de ter um gato, pobrezinho, o que seria dele naquela situação, não é mesmo Wislawa? Isso não é com você não, Barbie, eu disse para outra pessoa. 

(Rio de Janeiro: Objetiva, 2014, p. 77/78)

*venda de garagem

Obs: Marília Arnaud: paraibana, autora de crônicas e contos, faz parte da coletânea 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira.

O contexto legitima a seguinte afirmação:
A
Sobre Alice, que se vale do registro informal, é justo entender que tem domínio da norma-padrão, e que Elizete não tem esse domínio, como o comprovam o fato de esta expressar espanto por meio da interjeição Vixe e valer-se da contração pra.
B
É aceitável compreender que o emprego de Pronto e Foi o que bastou constitui caso de redundância que se mostra positiva, pois Pronto sugere carga emocional que enriquece a ideia expressa por Foi o que bastou.
C
É indispensável entender o segmento Porque eu quero! como pensamento de Alice, pois não seria possível tomá-lo como resposta a hipotética pergunta da filha ou prima sobre a razão de querer manter o caderno.
D
É razoável que se compreenda a expressão graças a Deus como gratidão da narradora por sempre ter rejeitado a hipótese de adotar um gato.
E
É admissível que Alice, ao referir-se a seus pertences como meus trastes, revela ceder ao brilho da “garage sale” e à opinião de Norinha de que ela havia virado uma velhota sentimental.