O texto á seguir trata-se de adaptação da crônica “O Brasil, o mundo, o futuro”, de Rachel de Queiroz, publicada no livro As Terras Ásperas (1993).
Não, não foi só Brasil que mudou pra pior. O Brasil até que marcha, discretamente, na sua posição moderna de time da segunda (ou terceira) divisão, como lhe cabe. Quem mudou na verdade foi o mundo, todo o mundo por aí.
Aquela invenção da União Européia parecia genial – solução e exemplo para o planeta inteiro. E até agora eles mantêm, mais ou menos, as aparências. O dinheiro, a bela prosperidade, as vacas gordas os vêm unindo. Pois, se quando não há pão, todos gritam e ninguém tem razão – quando o pão abunda ninguém fala, já que estão de boca cheia ou digerindo. Mas há muito ódio antigo entre os componentes da UE, ódios de milênios.
Alguém no mundo acredita que suíços, franceses, alemães, ingleses, irão docilmente se submeter à liderança dos portugueses, quando a sua presença na presidência da UE se efetivar? Para os sofisticados países da Europa atlântica, Portugal sempre foi um país de segunda classe, meio africano, meio sul-americano, orientado menos para a Europa do que para as suas ex-colônias, tão maiores e de mais peso do que ele – como o Brasil, por exemplo. A arrogância inglesa irá aceitar a autoridade desses lusitanos que, desde os tempos dos “Doze da Inglaterra”, sempre por eles foram considerados e tratados como verdadeira colônia britânica? E, falando nos ingleses, será que eles já devolveram Gibraltar à Espanha? É muito caranguejo no mesmo balaio, muito interesse cruzado, muita rivalidade demais. E tudo agravado por essa feia onda de racismo que assola os europeus mediterrâneos, contra a invasão dos migrantes vindos da África do Norte.
Olha, vai ver nós aqui, na Sul América, talvez estejamos mais próximos de um entendimento que, pelo menos no princípio, nos ajudará a todos. E só quando estivermos muito ricos, daqui a uma geração ou mais, é que se irá pensar nas disputas de poder, quero dizer, de dinheiro, já que o dinheiro é a força. Esse será o problema para os nossos filhos e netos.
Mas a Europa é coisa para amanhã ou depois de amanhã. E talvez a gente ainda assista à grande estralada. Que possivelmente talvez saia pior do que a fragmentação da União Soviética – aquela aparentemente indivisível fachada de união e fraternidade entre nações imensamente diversificadas, mas unidas pelo ideal socialista...
Ideal? Pois sim!
As afirmativas abaixo se referem ao texto:
- Apesar da tentativa de unir povos do Velho Continente para uma convivência pacífica, intenção que se percebe na criação da União Européia, ela resultará vã, pois incontornáveis divergências históricas acabarão por se sobrepor a essa utopia.
- Somente na América do Sul é possível vislumbrar a tão sonhada união, isso porque temos um passado comum de exploração e subserviência perante os países que, hoje, são considerados de Primeiro Mundo.
- A ideologia socialista foi capaz de unir os povos que constituíram a extinta União Soviética, mas a igualdade entre as etnias não se viabilizou devido ao desmoronamento desse país.
- Mais que as ideologias, interessa ao povo a abundância; por isso, apesar das desavenças históricas, os povos reunidos sob a égide da União Européia ainda não se manifestaram contra essa entidade, por estarem satisfeitos com sua atual condição econômica.
Estão corretas: