A história da filosofia ocidental é frequentemente descrita como uma sucessão de notas de rodapé à obra de Platão. Após a execução de seu mestre, Sócrates empenhou-se em construir um sistema capaz de superar o relativismo dos sofistas e as limitações da democracia ateniense.
Inaugurando o idealismo, Platão desloca a visão da aparência das coisas para a essência delas. Desse modo, a filosofia platônica divide a realidade em dois planos distintos, sendo o mundo sensível que é marcado pela mudança e pela opinião, e o mundo inteligível que abriga as verdades eternas e universais.
Compreender os pilares desse sistema e sua aplicação política é fundamental para entender os fundamentos da filosofia ocidental e a influência do pensamento platônico sobre a concepção de verdade, justiça e política. Veja mais no artigo a seguir:
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A busca por um fundamento inabalável
Platão, discípulo de Sócrates, iniciou sua jornada filosófica marcado pelo julgamento que condenou aquele que considerava o homem mais sábio de Atenas. Para ele, a execução de Sócrates revelava uma sociedade incapaz de distinguir a verdade da simples opinião.
Diante disso, sua primeira grande tarefa foi refutar o relativismo de Protágoras, que afirmava ser o homem a medida de todas as coisas. Para Platão, se a verdade fosse relativa ao indivíduo, não haveria fundamento sólido para a justiça nem para a ciência.
Além do conflito ético, Platão enfrentava um impasse ontológico clássico: o embate entre Heráclito e Parmênides. Se tudo flui e nada permanece, como dizia Heráclito, o conhecimento seria impossível, pois nada permaneceria estável.
Por outro lado, se nada muda, como sugeria Parmênides, o mundo que vemos ao nosso redor seria uma mera ilusão. A solução platônica foi conciliar essas posições, reconhecendo que Heráclito tinha razão quanto ao mundo material, enquanto Parmênides estava correto em relação ao mundo do pensamento.
Assim, o filósofo estabelece a divisão entre o mundo sensível, marcado pela mudança, e o mundo inteligível, caracterizado pela permanência. Sua tese central sustenta que o conhecimento verdadeiro, a episteme, só é possível quando se dirige a algo universal e imutável.
Os dois mundos e a hierarquia da realidade
Esta é a parte central da metafísica platônica. Para explicar como o conhecimento ocorre, Platão propõe o dualismo ontológico, dividindo a realidade em duas instâncias que possuem naturezas e valores diferentes.
O mundo sensível: o império da aparência
O mundo sensível é o mundo físico que habitamos, acessível por meio dos sentidos. Ele é marcado pela mutabilidade, pela imperfeição e pela finitude, pois nada no plano material permanece idêntico a si mesmo.
E ainda nenhum objeto sensível é plenamente perfeito. Um círculo desenhado no papel nunca será absolutamente redondo, assim como um ato de justiça humana jamais alcança a justiça absoluta.
O contato com esse mundo gera apenas a doxa, isto é, a opinião. Trata-se de um conhecimento instável, variável conforme o indivíduo, a cultura e as circunstâncias.
Na Alegoria da Caverna, o mundo sensível corresponde ao interior da caverna. As sombras projetadas na parede simbolizam os objetos físicos, que são cópias imperfeitas e distorcidas de uma realidade superior.
O mundo inteligível: o mundo das Ideias
Acima da matéria, Platão postula a existência de um plano puramente intelectual, eterno e imutável. Nele residem as Ideias, consideradas modelos perfeitos de tudo o que existe.
O conhecimento próprio desse plano é a episteme, ou ciência, alcançada exclusivamente pela razão (nous). Ao contrário da opinião, a ciência é universal e nunca muda.
No topo do mundo inteligível encontra-se a Ideia de Bem, comparada por Platão ao Sol. Assim como o astro ilumina os objetos físicos, tornando-os visíveis, o Bem ilumina as demais Ideias, tornando-as inteligíveis para a alma humana, sendo a causa de toda verdade e a finalidade de toda a existência.
Teoria da reminiscência: conhecer é recordar
Surge uma questão fundamental da metafísica platônica: se as Ideias perfeitas existem em um mundo à parte e nós vivemos em um mundo imperfeito, como é possível sequer pensar na perfeição? Como um ser humano limitado pode conceber um triângulo perfeito, se nunca o encontra plenamente na natureza?
Platão responde a esse problema por meio da Teoria da Reminiscência (anamnese). Ele postula que a alma humana é imortal e, antes de encarnar no corpo, habitou o Mundo das Ideias, onde contemplou diretamente as Formas perfeitas e a verdade em sua pureza.
Ao encarnar no corpo, “prisão da alma” para Platão, o indivíduo sofre um esquecimento profundo, que não elimina o conhecimento, mas o encobre, tornando-o latente na alma.
Assim, aprender não significa receber informações novas de fora para dentro, mas despertar um saber que já existe interiormente.
A filosofia torna-se, portanto, um processo de purificação da alma para a recuperação das verdades que ela já possui. Esse conceito reforça a humildade intelectual socrática, pois o filósofo não ensina a verdade, mas auxilia o discípulo a buscar as ideias que já carrega em si.
A alegoria da caverna e as implicações políticas
A Alegoria da Caverna é a síntese pedagógica do pensamento platônico, unindo sua teoria do conhecimento à sua visão de Estado. Imagine prisioneiros acorrentados desde a infância no fundo de uma caverna, obrigados a ver apenas sombras projetadas na parede e convencidos de que elas são a única realidade existente.
Essas correntes simbolizam o corpo, os sentidos e os preconceitos que mantêm o ser humano preso ao senso comum, a doxa. Nesse estágio, o indivíduo confunde aparência com verdade e vive submetido às opiniões dominantes.
O prisioneiro que consegue se libertar representa o filósofo. Sua saída da caverna é um processo doloroso, pois a luz do sol fere os olhos habituados à escuridão, assim como a verdade causa desconforto àquele que viveu imerso na ignorância.
Esse percurso de libertação é a dialética, entendida como a ascensão da alma que, através do diálogo e do raciocínio matemático, abandona os exemplos múltiplos e sensíveis para atingir a unidade da Ideia.
Ao contemplar o sol, símbolo da Ideia de Bem, o filósofo atinge o conhecimento verdadeiro. E o saber não pode ser um privilégio individual, o filósofo que conheceu o Bem tem o dever moral de retornar à caverna e tentar libertar os demais prisioneiros. Embora corra o risco de ser ridicularizado, morto como Sócrates, ele é o único qualificado para governar.
Essa é a base da sofocracia, o governo dos sábios. Para Platão, a democracia falha pois permite que a opinião da maioria ignorante decida os rumos da cidade. A justiça na pólis só seria alcançada quando filósofos governassem, aplicando as leis racionais do mundo das Ideias para administrar o mundo sensível.
O legado e a continuidade
A herança platônica moldou o pensamento ocidental. Sua distinção entre alma e corpo e entre mundo material e espiritual foi absorvida pela teologia cristã e fundamentou a busca científica por leis universais que governam a natureza.
Embora tenha sido criticado por Aristóteles, que rejeitou a separação entre dois mundos ao defender a unidade entre matéria e forma, o platonismo não perdeu sua força filosófica. O debate inaugurado por Platão permanece central para a compreensão do conhecimento, da ética e da política.
Num contexto marcado pela superficialidade informacional e pela manipulação de discursos, o convite platônico de romper com as sombras da caverna e buscar a verdade racional e ética é mais atual do que nunca.
Trata-se fundamentalmente da criação do ser político, que se informa, exige seus direitos e detém o pensamento crítico para garantir a sua cidadania.
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