Aristóteles: o sistematizador do real e a ética do meio-termo

Aristóteles: o sistematizador do real e a ética do meio-termo

Entenda mais sobre Aristóteles e como ele se consagrou na história com suas ideias e pensamentos debatidos até a contemporaneidade

Se Platão foi o filósofo que nos convidou a olhar para o céu em busca das Ideias perfeitas, Aristóteles foi quem nos trouxe de volta à terra, lembrando que a verdade está bem diante dos nossos olhos, na realidade concreta.

Discípulo de Platão por duas décadas, Aristóteles não foi apenas um seguidor, mas o primeiro grande crítico e sistematizador do conhecimento ocidental. Enquanto o mestre via o mundo sensível como uma sombra  imperfeita da verdadeira realidade, o discípulo via nele a única realidade concreta onde a essência e a matéria coexistem.

Neste artigo, exploraremos como Aristóteles rompeu com o dualismo platônico, lançou as bases da lógica e da biologia e formulou uma ética fundada na virtude e na felicidade, cujos princípios continuam a orientar o pensamento filosófico contemporâneo.

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O discípulo crítico: o foco no mundo sensível

A ruptura de Aristóteles com Platão foi um dos momentos mais emblemáticos da história do pensamento ocidental. Seu lema resume essa postura crítica: “Sou amigo de Platão, mas sou mais amigo da verdade”.

Aristóteles discordava frontalmente da Teoria das Ideias, que separava a realidade em dois mundos. Para ele, a essência ou forma não habitam um mundo de Ideias abstrato, mas está nas próprias coisas (in re), inseparáveis da realidade.

Diferente de Platão, Aristóteles foi um naturalista e um observador atento do mundo. Acreditava que a realidade é composta por substâncias concretas e que o conhecimento verdadeiro não se alcança pelo abandono dos sentidos, mas pela observação rigorosa orientada pela razão.

Além disso, Aristóteles destacou-se como o grande sistematizador do saber antigo. Foi o primeiro a organizar o conhecimento humano em áreas distintas, como Lógica, Física, Metafísica, Ética e Política, estabelecendo as bases das disciplinas científicas que estruturam o pensamento ocidental até hoje.

A teoria do ser e do conhecimento: metafísica e lógica

Para compreender a realidade, Aristóteles criou um vocabulário técnico que usamos até hoje. Ele queria descrever o que faz de uma coisa o que ela é.

Substância e acidentes

Aristóteles afirma que o ser se diz de várias maneiras, mas sua forma principal é a substância (ousia). A substância é aquilo que existe em si e por si mesmo, como um cavalo específico ou uma pessoa determinada. Ela funciona como o suporte de todas as propriedades.

Os acidentes, por sua vez, são características que existem apenas “em” algo. A cor do cavalo, a altura de uma pessoa ou sua posição no espaço podem mudar sem que a substância deixe de ser o que é. Assim, mesmo que o cavalo mude de cor, continua sendo o mesmo cavalo.

O ponto central é compreender que, para Aristóteles, o ser não é uma Ideia abstrata fora do mundo, mas a coisa singular e concreta que percebemos na experiência.

A teoria das quatro causas

Aristóteles sustenta que conhecer algo verdadeiramente significa conhecer suas causas. Por isso, ele propôs que tudo o que existe pode ser explicado por quatro causas fundamentais:

  • Causa material: esponde do que a coisa é feita, como o mármore de uma estátua;
  • Causa formal: indica a forma ou essência que organiza essa matéria, como o modelo que faz do mármore uma estátua específica;
  • Causa eficiente: aponta quem ou o que produziu a coisa, como o escultor; e
  • Causa final: revela a finalidade ou o propósito da coisa, isto é, o telos para o qual ela existe.

Essa visão é teleológica, o que significa que, para Aristóteles, tudo na natureza tem um propósito, uma finalidade interna para a qual tende a se desenvolver.

A lógica (o órganon)

Aristóteles não considerava a lógica uma ciência em si, mas o instrumento (órganon) indispensável para todas as ciências. Foi ele quem formulou o silogismo, a estrutura clássica do raciocínio dedutivo, composta por duas premissas e uma conclusão necessária.

Premissa 1: Todos os homens são mortais.

Premissa 2: Sócrates é homem. 

Conclusão: Logo, Sócrates é mortal.

Ele estabeleceu os pilares da lógica formal, como o princípio da não-contradição, segundo o qual algo não pode ser e não ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto, e o princípio do terceiro excluído, Aristóteles lançou os fundamentos da lógica formal.

Sem esses princípios, o pensamento racional, a argumentação filosófica e o próprio conhecimento científico seriam impossíveis, o que explica a centralidade da lógica aristotélica na história do pensamento ocidental.

A teoria do movimento: ato e potência

Como explicar que uma semente se transforma em uma árvore sem dizer que ela “deixou de ser”? Aristóteles resolve esse problema por meio dos conceitos de ato e potência.

Para ele, o movimento não é o surgimento do nada, mas a atualização de uma capacidade existente. A potência é a possibilidade de transformação: a semente é um carvalho em potência. O ato é a realização dessa possibilidade: o carvalho adulto é a árvore em ato.

O movimento vai consistir na passagem da potência ao ato. Nada pode mudar por si mesmo sem que algo que já esteja em ato provoque essa mudança.

O motor imóvel

Ao seguir a cadeia de causas e movimentos, Aristóteles conclui que não é possível retroceder ao infinito. Deve existir uma primeira causa que explique o movimento de todas as coisas sem precisar ser movida por outra.

Essa causa primeira é o motor imóvel, definido como ato puro, isto é, sem nenhuma potência. Se tivesse potência, precisaria de algo para atualizá-la e não seria verdadeiramente primeiro.

A ética aristotélica: a busca pela eudaimonia

Se a física investiga o que as coisas são, a ética investiga o que os seres humanos devem fazer.

O telos humano: a felicidade

Para Aristóteles, toda ação humana visa a algum bem. Entre todos eles, há um bem supremo, o fim último (telos) de nossas ações: a felicidade (eudaimonia).

É importante não confundir eudaimonia com prazer momentâneo. Trata-se de uma vida bem vivida, orientada pela razão, na qual o ser humano realiza plenamente sua excelência própria.

A virtude (arete) como ponto médio

Como alcançar a felicidade? Por meio da virtude. Aristóteles define a virtude moral como o justo meio entre dois extremos viciosos: um por excesso e outro por falta.

A coragem, por exemplo, é o meio-termo entre a covardia, que é a falta de coragem, e a temeridade, que é o excesso — agir sem prudência perante o perigo.

A sabedoria prática (phronesis)

Diferente da matemática, a ética não é uma ciência exata. Para encontrar o meio-termo, precisamos da phronesis, ou sabedoria prática. É a capacidade de julgar corretamente o que fazer em cada situação específica. A virtude não se aprende apenas nos livros; ela se adquire pelo hábito e pela experiência. 

Legado e a continuidade

Aristóteles não foi apenas um filósofo da Grécia Antiga, ele foi o tutor do pensamento ocidental por quase dois milênios. Sua obra foi a base da ciência e da teologia medieval, sendo incorporada ao cristianismo por São Tomás de Aquino, que uniu a razão aristotélica à fé cristã.

Embora a Revolução Científica tenha superado sua física, sua ética permanece muito atual. A Ética da Virtude ocupa hoje um lugar central no debate filosófico contemporâneo, oferecendo uma alternativa tanto ao rigorismo do dever kantiano quanto ao cálculo impessoal do utilitarismo.

Aristóteles ensina que a moralidade e a felicidade caminham juntas, mostrando que uma vida ética não se reduz a regras abstratas ou cálculos frios, mas depende da formação do caráter, do equilíbrio e do exercício consciente das virtudes.

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