O Realismo surgiu no século XIX como reação à idealização romântica, retratando a sociedade burguesa. Isso levou autores como Machado de Assis e Eça de Queirós a analisar o materialismo, a hipocrisia e o vazio existencial da classe dominante.
A literatura realista transformou a burguesia em público e alvo de crítica social, criando um “espelho” da modernidade capitalista. Assim, temas como adultério, ambição e frustração revelam dramas e contradições morais do século XIX.
Nesse texto, você vai entender a crítica realista à burguesia, o Bovarysmo, o materialismo, a mediocridade social e a relação entre literatura e consumo no século XIX. Acompanhe abaixo.
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Paradoxo do consumo
O Realismo do século XIX surgiu graças ao apoio financeiro da burguesia. Paradoxalmente, essa mesma classe era criticada e ironizada por autores como Gustave Flaubert, Eça de Queirós e Machado de Assis.
Diferentemente do Romantismo, que exaltava heróis idealizados e grandes valores morais, o Realismo preferiu desmontar ilusões. O adultério em obras como Madame Bovary e Dom Casmurro não deve ser entendido apenas como “fofoca literária”.
O verdadeiro centro dessas narrativas é a estrutura social burguesa. O casamento, por exemplo, aparece menos como união amorosa e mais como contrato econômico, mecanismo de ascensão social ou manutenção de patrimônio.
A literatura realista funciona como um “espelho amargo” que buscava reconhecimento social e arte, mas refletia apenas seus próprios valores, expondo materialismo, hipocrisia moral, culto às aparências e superficialidade das relações.
O Realismo não critica indivíduos isolados, mas examina uma classe social inteira em ascensão após a Revolução Industrial e a Revolução Francesa. O movimento analisa as consequências psicológicas, sociais e econômicas do triunfo burguês no século XIX.
Burguesia como público e personagem
Os escritores realistas viviam uma tensão criativa permanente: como atacar a burguesia e, ao mesmo tempo, depender dela para sobreviver financeiramente? Afinal, o público leitor era majoritariamente urbano, alfabetizado e pertencente às camadas médias e altas.
Uma das soluções encontradas pelos autores foi o uso intenso da ironia e do distanciamento narrativo. O narrador realista frequentemente se comporta como um cientista observando um experimento social.
Em vez de idealizar personagens, ele os analisa friamente, expondo suas contradições. Em Memórias Póstumas de Brás Cubas, por exemplo, o humor irônico revela a inutilidade e o egoísmo das elites brasileiras do Segundo Reinado.
Além disso, existia ainda a “lógica da exceção” que fazia o burguês projetar críticas em terceiros. Ao identificar defeitos alheios, ele se isenta, permitindo que a sátira social circule sem afastar o público.
O crescimento dos jornais e folhetins profissionalizou o escritor e consolidou o Realismo atrelando literatura e gosto público. Com a publicação periódica, a obra literária deixou de ser um passatempo aristocrático tornando-se um produto do mercado cultural.
Esse fenômeno, portanto, aproxima a literatura e o consumo. O romance transforma-se em mercadoria, e o escritor passa a negociar constantemente entre crítica estética e sucesso comercial.
Ascensão do medíocre
Georg Lukács observa que o herói realista perde sua aura excepcional para se tornar um “homem comum”. Diferente do protagonista romântico idealizado, o novo personagem realista é definido por sua mediocridade e inserção na vida cotidiana.
A ascensão do personagem comum revela a essência da sociedade burguesa, trocando feitos heroicos por preocupações burocráticas e financeiras. A narrativa foca no cotidiano priorizando temas como casamentos, heranças e reputação social.
Em Esaú e Jacó, o Conselheiro Aires representa justamente essa figura discreta, observadora e burocrática. Ele não possui grandeza épica,mas sua importância vem da capacidade de analisar a sociedade ao redor.
Influenciado por Determinismo e Positivismo, o movimento passa a enxergar o ser humano como produto do meio, da hereditariedade e das condições sociais. O personagem não escolhe livremente quem será, mas é moldado pelas estruturas que o cercam.
Por isso, os protagonistas realistas muitas vezes parecem frustrados, limitados e moralmente contraditórios. O objetivo dos autores não era criar ídolos, mas retratar a banalidade da vida moderna.
Materialismo e reificação
Uma das características mais marcantes do Realismo é a descrição detalhada dos ambientes, roupas, móveis e objetos. Muitos consideram essas passagens como “enchimento”, mas elas têm função essencial.
No universo burguês do século XIX, as pessoas passam a ser avaliadas pelo que possuem. Esse processo é chamado de reificação e o indivíduo vale pelo piano que exibe, pela qualidade da roupa que veste ou pela herança que administra.
Assim, quando um romance realista descreve cortinas luxuosas, joias ou móveis sofisticados, ele não está apenas decorando o texto. Está mostrando como os objetos definem relações sociais tornam-se símbolo de status, prestígio e poder.
Esse fenômeno se conecta ao conceito de fetiche da mercadoria desenvolvido por Karl Marx. No capitalismo, os objetos parecem adquirir mais valor do que as próprias relações humanas e o consumo transforma-se em medida de reconhecimento social.
Por isso, a linguagem realista costuma ser densa, minuciosa e objetiva. A descrição funciona como diagnóstico social. O leitor compreende quem é o personagem observando os bens que ele acumula.
Bovarysmo e atualidade
O termo “Bovarysmo” deriva de Madame Bovary e representa uma das críticas mais profundas à mentalidade burguesa. Não se trata apenas de insatisfação amorosa, mas de uma frustração produzida pelas condições sociais do século XIX.
Bovary vivia aprisionada por pertencer a pequena burguesia, sem participação no espaço público nem independência econômica. Proibida de trabalhar e limitada ao ambiente doméstico, alimentava-se emocionalmente de romances idealizados.
A causa do Bovarysmo está nesse contraste entre fantasia e realidade. Emma imagina vida luxuosa, intensa e apaixonada, mas encontra casamento monótono, contas a pagar e sociedade conservadora. O resultado é um vazio constante.
O conceito permanece extremamente atual com as redes sociais produzindo mecanismos semelhantes. Muitas pessoas vivem comparando sua existência cotidiana às vidas aparentemente perfeitas exibidas online, levando a ansiedade moderna.
Assim como Bovary sofria ao comparar sua realidade aos romances românticos, o indivíduo contemporâneo sofre ao comparar sua vida às imagens idealizadas da internet. Surge a sensação de que deveríamos ser mais bem-sucedidos.
O Legado
O Realismo, mais do que um movimento artístico, representou a autocrítica da burguesia após sua ascensão política e econômica. A classe percebeu que progresso e racionalidade não eliminaram a hipocrisia, o vazio existencial nem a desigualdade social.
Os escritores realistas transformaram a literatura em instrumento de análise social. Em vez de heróis perfeitos, apresentavam indivíduos comuns presos ao dinheiro, às aparências e às convenções sociais.
Para interpretar corretamente uma obra realista, não basta perguntar “o que aconteceu?”. A pergunta mais importante é: “o que os objetos revelam sobre aquela sociedade?” e “quem está pagando para consumir essa narrativa?”.
O Realismo é o momento em que a burguesia, após conquistar o mundo, senta-se no divã da literatura. Ela passa a encarar suas próprias feridas, como a futilidade, o materialismo e a falta de propósito.
Questão do Vestibular sobre realismo e burguesia
ITA (2009)
Os romances de Machado de Assis e os de Graciliano Ramos são exemplos bem acabados da forte presença do realismo na Literatura Brasileira. Entretanto, há diferenças bem marcantes entre a ficção realista do século XIX e a ficção de cunho realista da geração de 30. Algumas delas são:
I. As obras realistas do século XIX (em particular os romances de Machado de Assis) retratam a burguesia rica, enquanto os romances de Graciliano Ramos retratam apenas os retirantes vítimas da seca.
II. No século XIX, o realismo tem preferência pela temática do adultério feminino e do triângulo amoroso, tema este que não é central nas obras da geração de 30, que se preocupam mais com a desigualdade social.
III. Os romances machadianos são urbanos; as obras de Graciliano Ramos retratam, em geral, os ambientes rurais do Nordeste.
IV. No realismo do século XIX, as personagens, em geral, são mesquinhas, vis e medíocres. Já na ficção realista dos anos 30, as personagens são, sobretudo, produtos de um meio social adverso e injusto.
Está(ão) correta(s)
A) apenas I, II e III.
B) apenas I, II e IV.
C) apenas II, III e IV.
D) apenas III e IV.
E) todas.
Alternativa Correta:
C
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