Dadaísmo: a rebelião do absurdo e a gênese da arte contemporânea

Dadaísmo: a rebelião do absurdo e a gênese da arte contemporânea

Entenda mais sobre o movimento dadaísta e sobre a forma que ele foi criado para ser instrumento crítico da sociedade burguesa

Se o renascentismo celebrou a harmonia e o neoclassicismo exaltou a razão, o dadaísmo foi o movimento que chutou as portas do museu para anunciar que a arte estava morta, ao menos, a arte como o mundo burguês consumia. 

Mais que um estilo estético e artístico da primeira guerra, esse movimento foi um gesto de rebeldia contra os valores tradicionalistas de arte que traz posicionamento político e existencial. Ele nasceu do descrédito na civilização europeia que, mesmo orgulhosa de sua ciência e racionalidade, mergulhou no horror das trincheiras.

Leia mais a seguir para compreender o movimento que abriu caminho para tudo o que hoje chamamos de arte contemporânea. 

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O berço no caos

O dadaísmo não nasceu nos centros tradicionais das artes, como Paris ou Roma, mas sim na Suíça. Enquanto a Europa se destruía nas trincheiras da primeira guerra mundial (1914–1918), Zurique tornou-se refúgio de intelectuais, artistas, poetas e desertores. Ali, observava-se com espanto o colapso moral das civilizações.

A grande guerra

Para os jovens artistas reunidos em Zurique, valores como razão, lógica e progresso, tão exaltados pela burguesia do século XIX, haviam fracassado brutalmente. A racionalidade europeia e o avanço tecnológico culminaram no massacre industrial das metralhadoras e tanques de guerra.

Instalou-se a percepção de que a cultura clássica havia mentido para a humanidade. O ideal iluminista de progresso revelou sua face sombria, transformando ciência e técnica em instrumentos de destruição em massa.

Diante disso, a reação dadaísta foi radical. Se a lógica conduziu ao horror, a resposta deveria ser a ilógica, absurda e caótica. O niilismo, que era a negação dos valores estabelecidos, tornou-se a base filosófica do movimento.

Cabaret Voltaire

O epicentro dessa revolta foi o Cabaret Voltaire, fundado por Hugo Ball e Emmy Hennings. Mais do que um bar, o espaço funcionava como um laboratório de experimentações artísticas extremas.

Ali aconteciam leituras de poesias simultâneas, com vozes sobrepostas em gritos desconexos, danças absurdas com máscaras grotescas e apresentações musicais deliberadamente caóticas. A intenção era provocar, chocar e purgar o espírito humano por meio do impacto sonoro e visual.

A anti-arte

O dadaísmo é um movimento anti-arte. Ele opera por meio de um paradoxo fundamental, já que usa dos próprios espaços institucionais da arte para negar a validade da arte tradicional. O museu torna-se palco de contestação, não de veneração.

O objetivo era destruir a “aura” dos objetos sagrados e intocáveis que obras expostas em galerias tinham. Os dadaístas desprezavam a técnica refinada e a busca pela beleza estética. Para eles, a arte deveria refletir o caos da vida moderna, marcada pela guerra e pela violência.

Não se tratava de criar objetos de admiração, mas de promover a reflexão. A obra deixava de ser algo permanente e harmonioso para tornar-se provocação e romper deliberadamente com o passado artístico.

A própria escolha do nome “dadá” expressa esse espírito. Houveram boatos que Tristan Tzara abriu um dicionário ao acaso e encontrou essa palavra, que significa “cavalo de pau” em francês. O termo foi adotado justamente por sua falta de sentido.

O nome não tem o intuito de explicar o movimento, pois ele não significa nada de forma coerente. A negação da lógica era parte essencial da proposta estética.

O público das exposições era frequentemente provocado, insultado ou colocado diante de situações desconfortáveis. A reação de indignação era a prova de que a arte ainda possuía poder de perturbar a complacência burguesa.

Duchamp, o protagonista 

Um nome que é a personificação do dadaísmo, é Marcel Duchamp. Ele deslocou o eixo da arte do fazer, habilidade manual e técnica, para o pensar, enfatizando a atitude intelectual. A arte deixa de ser produção estética e torna-se provocação conceitual.

Duchamp rompe com a tradição ao afirmar que a criação artística não depende mais do talento artesanal. O artista passa a ser aquele que escolhe e propõe a nova forma de enxergar um objeto. O gesto mental torna-se mais importante que a técnica.

O ready-made: a invenção do século XX

Duchamp criou o conceito de ready-made (“já feito”). A proposta simples e revolucionária era escolher um objeto industrial comum, produzido em massa, e trazê-lo para o espaço expositivo. A escolha do artista transformava o objeto em obra de arte.

A partir dessa ruptura, a arte deixa de ser sobre pintura ou escultura e passa a ser sobre conceito. O valor da obra não está na técnica, mas na ideia que ela provoca e na indagação que ela impõe ao espectador.

Obras

A Fonte (1917)

Em 1917, Duchamp comprou um urinol, virou-o de cabeça para baixo e o assinou como “R. Mutt”. Ao enviá-lo para uma exposição independente em Nova York, lançou o questionamento se um objeto sanitário poderia ser arte.

A resposta dadaísta foi afirmativa. Se o artista escolhe e a instituição permite, o objeto torna-se obra de arte. A Fonte questiona os critérios de beleza e a autoridade dos museus, tornando-se um dos marcos desse movimento.

L.H.O.O.Q. (1919)

Em 1919, Duchamp interveio sobre uma reprodução da Mona Lisa, desenhando um bigode e um cavanhaque. O título, lido rapidamente em francês, soa como uma expressão vulgar, intensificando o caráter provocativo da obra.

O gesto foi um ataque direto à arte renascentista. Sendo uma forma de Duchamp denunciar a veneração ao passado e a arte clássica.

Outras técnicas: acaso e fotomontagem

O dadaísmo expandiu as formas de se produzir arte e cultura. O acaso e a apropriação deixaram de ser acidentes para se tornarem princípios criativos. A obra não precisava nascer do controle absoluto do artista, mas podia surgir da desordem.

Tristan Tzara e a Poesia do Acaso

Tristan Tzara publicou a célebre fórmula de compor um poema dadaísta, o método era simples e provocador. Tratava de recortar palavras de um jornal, colocá-las num saco, agitá-lo e retirar os termos aleatoriamente.

O poema deveria ser montado na ordem em que as palavras fossem retiradas. O resultado não obedecia à lógica gramatical tradicional, mas revelava a força do acaso como princípio estético.

Fotomontagem

Em Berlim, o movimento teve um tom mais político e combativo. Artistas como Raoul Hausmann e Hannah Höch utilizaram a fotomontagem para criticar a sociedade do pós-guerra.

Recortando imagens de revistas, jornais e fotografias, criaram composições caóticas. As obras denunciavam a mecanização da vida moderna, questionavam o papel da mulher e expunham a crise política alemã após a guerra.

Man Ray e as rayografias

Man Ray inovou na fotografia com as chamadas “rayografias”. Ele produzia imagens sem o uso de câmera, posicionando objetos diretamente sobre o papel fotográfico sensível à luz.

Ao expor o papel por alguns segundos, surgiam formas inesperadas e sombras abstratas. Era a fotografia do acaso, em que o artista abria mão do controle total do resultado, reforçando o espírito experimental.

A influência no Brasil

A força do dadaísmo transbordou a Europa e respingou até no modernismo brasileiro. Na Semana de Arte Moderna de 1922, o espírito de ruptura das vanguardas ofereceu aos artistas nacionais a coragem necessária para enfrentar o academicismo parnasiano e redefinir os rumos da cultura.

Autores como Mário de Andrade e Oswald de Andrade herdaram do dadaísmo o deboche, a fragmentação da linguagem e o desejo de provocar a burguesia. A arte deixou de buscar aprovação e passou a assumir a polêmica como estratégia de transformação cultural.

O episódio da leitura de “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, ao satirizar os poetas parnasianos, o poema gerou vaias no teatro municipal, reação que, numa perspectiva dadaísta, representava o sucesso.

O legado dadaísta

O dadaísmo representa a negação radical, o niilismo, a provocação, o acaso e a ironia como instrumentos de implosão do sistema artístico tradicional.

É válido considerar que o dadaísmo foi a semente da arte conceitual contemporânea. Ao afirmar que a ideia vale mais do que a técnica, abriu caminhos para a redefinição do que pode ser considerado arte.

Mais do que um movimento histórico, dadá representa uma virada na compreensão da criação artística. Ele mostrou que, diante do absurdo do mundo, a arte pode responder com questionamento, ironia e ruptura, reinventando a si mesma.

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