Escultura no surrealismo: a materialização do inconsciente

Escultura no surrealismo: a materialização do inconsciente

Entenda mais sobre o movimento surrealista, a forma que a arte reproduz o onírico no mundo tridimensional através das esculturas

Se o futurismo exaltava a máquina e o dadaísmo negava tudo, o surrealismo assumiu uma tarefa ainda mais ambiciosa de cartografar o último território inexplorado da modernidade que é o inconsciente. Na escultura, essa missão ganhou forma física, tátil e peculiar.

Diferente das esculturas clássicas, que buscavam representar a realidade externa com perfeição formal, a escultura surrealista não quer imitar o mundo visível, mas a realidade dos sonhos

Ela materializa desejos reprimidos, medos, fetiches e impulsos que a razão tenta controlar. O surrealismo troca a lógica racional pela lógica onírica, entenda mais sobre no artigo a seguir do Estratégia Vestibulares.

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A materialização do inconsciente

A escultura surrealista rompe com a tradição da mímesis, conceito estético da antiguidade que defende a arte como imitação da realidade. Seu objetivo não é reproduzir o que o olho vê, mas dar forma ao que a mente enxerga. É uma arte que olha para dentro.

A influência de Freud e a lógica do sonho

O movimento surrealista é profundamente influenciado por Sigmund Freud. A psicanálise ofereceu aos artistas uma chave interpretativa poderosa, onde a obra poderia funcionar como canal direto para vontades reprimidas, traumas e desejos. A escultura deixa de ser apenas a representação formal e passa a explorar o subconsciente.

O escultor já não é apenas um técnico da forma, mas um mediador do inconsciente. A criação artística vira quase uma “escrita automática” em três dimensões, materializando impulsos que escapam do pensamento racional. 

Assim como nos sonhos, objetos sem relação aparecem juntos, escalas se alteram e o tempo perde coerência. A escultura surrealista expõe essa desordem para o mundo físico. O inesperado passa a ser princípio criativo.

Essa definição estética do movimento está na célebre frase do poeta Lautréamont: “Belo como o encontro fortuito de uma máquina de costura e um guarda-chuva sobre uma mesa de dissecação.” A união de elementos incompatíveis cria choque, estranhamento e poesia, igual aos sonhos.

O objeto surrealista (assemblage)

Diferente da escultura tradicional, que pode ser modelada ou talhada, o surrealismo dá mais atenção à montagem.

Apropriação: uso de objetos do cotidiano

O artista se apropria de objetos prontos, ou found objects, e os reorganiza de maneira inesperada. Essa prática tem origem no dadaísmo, especialmente nos ready-mades, objetos prontos do cotidiano que eram selecionados por artistas e elevados a obras de arte por conta da escolha do artista e não do objeto em si, de Marcel Duchamp.

Mas há uma diferença crucial: enquanto o dadaísmo era irônico e antiarte, o surrealismo “psicologiza” o objeto.

Desfuncionalização: da função utilitária à função simbólica

Um exemplo clássico é O Presente (Le Cadeau), de Man Ray.

Ao colar pregos na base de um ferro de passar roupas, o artista elimina sua função prática. O objeto deixa de servir para passar roupa e passa a sugerir dor e agressividade. A função utilitária morre e assim nasce a função simbólica.

Obras-chave da escultura surrealista

O objeto de funcionamento simbólico: Salvador Dalí

A obra Lobster Telephone (1936), de Salvador Dalí, apresenta um telefone comum cujo fone é substituído por uma lagosta. O objeto mantém sua forma funcional básica, mas é subvertido pela presença inesperada do animal, produzindo estranhamento. A lógica cotidiana é interrompida por uma imagem absurda.

Para Dalí, a lagosta era símbolo de tensão sexual e possuía conotação afrodisíaca, tema recorrente em sua obra. Ao posicioná-la exatamente onde a boca toca o telefone, ele cria uma associação direta entre comunicação e desejo.

O choque sensorial: Meret Oppenheim

Uma obra suprema da escultura surrealista é o Café da Manhã em Pele, por Meret Oppenheim. Trata-se de uma xícara, pires e colher inteiramente cobertos por pele de gazela. O conjunto preserva a forma delicada do utensílio doméstico, mas sua superfície transforma radicalmente a experiência.

Ao imaginar beber na xícara, o espectador antecipa a sensação desagradável do pelo tocando a boca. A obra produz um verdadeiro curto-circuito entre visão, tato e paladar, ativando simultaneamente atração e repulsa.

Aqui se manifesta o conceito freudiano do Inquietante (Das Unheimliche), formulado por Sigmund Freud: aquilo que é familiar, mas subitamente se torna estranho. A contradição surrealista entre desejo tátil e nojo gustativo aparece materializada em forma concreta.

Alberto Giacometti: a fase surrealista

Antes dos famosos “homens-palito”, Alberto Giacometti foi um gigante do Surrealismo.

Criada por Alberto Giacometti, a obra O Palácio às 4 da Manhã apresenta uma estrutura frágil que lembra a maquete de um pesadelo. Feita com linhas finas e quase esqueléticas, parece prestes a desmoronar a qualquer instante. A sensação é de precariedade, como se o espaço estivesse suspenso entre existir e desaparecer.

A escultura trabalha com o vazio, a leveza e símbolos pessoais do artista, organizados como elementos de um sonho. Trata-se de uma arquitetura onírica instável, uma construção psíquica delicada que pode se desfazer a qualquer momento.

A escultura biomórfica: Jean Arp

Jean Arp desenvolveu a vertente biomórfica do surrealismo. Suas esculturas afastam-se da colagem de elementos prontos e assumem formas autônomas, fluidas e contínuas.

Suas criações lembram pedras polidas pela água, amebas ou partes do corpo em metamorfose. O conceito central está nas formas orgânicas, arredondadas e que aparentam vida. Aqui, o acaso e a natureza se destacam e a matéria não parece construída, mas sim cultivada, como se crescesse espontaneamente.

Brasil: Maria Martins e o surrealismo amazônico 

Maria Martins ganhou destaque, pois ela combina o surrealismo europeu com mitologia amazônica. Erotismo, monstruosidade e natureza tropical fundem-se em bronzes retorcidos.

Essa é a obra O impossível (1944), onde duas formas híbridas se inclinam uma para a outra sem conseguir se tocar. Espinhos e garras impedem o encontro.

A obra simboliza desejo e repulsa simultâneos. É a materialização da tensão erótica impossível de resolver plenamente, traduzida em linguagem escultórica brasileira.

Conclusão: a escultura como território do desejo

A escultura surrealista marca uma ruptura decisiva na arte moderna ao deslocar o foco da representação do mundo externo para a materialização do universo interior. Ao abandonar a mimese e a lógica racional, o movimento transforma o objeto artístico em manifestação psíquica, passando a expressar desejos, tensões e ambiguidades invisíveis.

No dadaísmo, o objeto servia para questionar o sistema da arte; no surrealismo, ele revela mecanismos ocultos da mente. A desfuncionalização deixa de ser apenas provocação formal e torna-se operação simbólica. O objeto perde sua finalidade prática e assume uma dimensão interpretativa.

As experiências de Salvador Dalí e Meret Oppenheim demonstram como a associação inesperada pode gerar tensão erótica e desconforto sensorial. O choque nasce do contraste entre familiaridade e estranhamento. A obra provoca antes de explicar.

Alberto Giacometti amplia essa investigação ao explorar estruturas frágeis e o uso expressivo do vazio. O espaço torna-se elemento ativo na construção de sentido. Já Jean Arp desenvolve formas orgânicas que sugerem metamorfose e crescimento natural, aproximando arte e processo biológico.

No Brasil, Maria Martins insere mitologia amazônica e erotismo em composições de forte dramaticidade. Sua produção confirma a expansão internacional do Surrealismo e sua capacidade de incorporar contextos culturais distintos.

O critério central é identificar o estranhamento simbólico. Combinações improváveis, ambiguidade sensorial e lógica onírica indicam a presença surrealista. Mais do que reconhecer imagens, é fundamental compreender a operação conceitual que transforma o objeto em expressão do inconsciente.

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