A performance no Dadaísmo nasce como uma resposta radical a um mundo em crise. Diante do caos da Primeira Guerra Mundial, artistas começaram a questionar tanto os valores da sociedade, quanto a própria ideia de arte, subvertendo a lógica, a beleza e a tradição que até então a sustentavam.
Nesse contexto, o palco deixa de ser um espaço de harmonia e passa a se tornar um lugar de provocação, ruído e confronto. No Dadaísmo, a arte quer incomodar, confundir e expor o absurdo de uma realidade marcada pela violência e pela perda de sentido.
Mas como essas ideias se materializam na prática? Ao longo deste texto que o Portal Estratégia Vestibulares elaborou, você vai entender como as performances dadaístas transformaram linguagem, corpo e público em instrumentos de ruptura, abrindo caminho para novas formas de expressão na arte contemporânea. Confira!
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O palco do absurdo: o Cabaret Voltaire
Para compreender o surgimento da performance no Dadaísmo, é importante voltar ao espaço onde tudo começou: o Cabaret Voltaire, fundado em 1916 na cidade de Zurique. Em plena Primeira Guerra Mundial, a Suíça era um território neutro, tornando-se refúgio para artistas, intelectuais e exilados que fugiam do conflito.
Foi nesse contexto que Hugo Ball e Emmy Hennings criaram um pequeno cabaré que rapidamente se transformaria em um dos espaços mais revolucionários da arte do século XX.
O próprio nome já carregava uma provocação, uma referência irônica a Voltaire, símbolo da razão e do pensamento iluminista. No Cabaret Voltaire, porém, celebrava-se justamente o contrário — a anti-razão, o absurdo e a negação da lógica.
O ambiente estava distante de qualquer ideal de ordem ou sofisticação. Havia fumaça, barulho constante, música improvisada, poetas gritando e tambores ecoando. Tudo ali se colocava como oposição direta ao teatro burguês convencional, ou seja, disciplinado, elegante e previsível.
No Cabaret Voltaire, o palco deixava de ser um espaço de contemplação para se tornar um território de caos e experimentação, onde nascia uma nova forma de arte: a performance dadaísta.
A poesia fonética: destruindo a linguagem
Se a guerra havia abalado os valores da razão, para os dadaístas ela também significou a falência da própria linguagem. Discursos políticos, manchetes de jornais e pronunciamentos oficiais estavam carregados de palavras que justificavam a violência e mascaravam a realidade. Diante disso, a linguagem deixava de ser um meio confiável de comunicação.
É nesse contexto que emerge a poesia fonética, uma das práticas mais radicais do Dadaísmo. Ao invés de construir sentidos, os artistas passam a desmontar as palavras, reduzindo-as a sons, ritmos e ruídos.
O intuito não era comunicar uma mensagem clara, mas justamente romper com o significado, como se fosse necessário “limpar” a língua de seus usos corrompidos.
Essa destruição da linguagem, para além de um experimento estético, era um gesto crítico. Ao esvaziar as palavras de sentido, os dadaístas denunciavam o quanto elas haviam sido manipuladas.
Assim, a performance sonora se tornava um ato de negação (mas também de reinvenção), abrindo caminho para novas formas de expressão que não dependiam da lógica ou da coerência discursiva.
Hugo Ball e o poema sonoro
A proposta da poesia fonética ganha sua forma mais emblemática nas apresentações de Hugo Ball no Cabaret Voltaire. Em seu poema Karawane, ele abandona completamente o uso de palavras reconhecíveis e passa a recitar sequências sonoras sem sentido, construídas somente por ritmo e musicalidade.
Ball surgia no palco vestindo um traje rígido de papelão, parecendo um bispo cubista ou um xamã robótico. O figurino limitava seus movimentos a tal ponto que ele precisava ser carregado até o palco, o que transformava seu corpo em uma espécie de escultura viva, estranha e artificial.
Essa combinação de som e imagem produzia um efeito profundamente desconcertante. Ao recitar sílabas desconexas com uma entonação quase ritualística, Ball concebia uma experiência que se aproximava de uma cerimônia primitiva.

O caos auditivo da poesia simultânea
Associada principalmente a Tristan Tzara, a prática da poesia simultânea intensificava o caráter caótico das performances.
Nela, três ou quatro poetas subiam ao palco ao mesmo tempo e começavam a recitar textos diferentes, muitas vezes em línguas distintas como alemão, francês e inglês. As vozes se sobrepunham, os ritmos se chocavam e qualquer possibilidade de compreensão se dissolvia no ruído.
O efeito era deliberadamente desconcertante. O público não conseguia acompanhar nenhuma linha de sentido, sendo exposto a uma experiência sonora fragmentada e quase agressiva, em que ora saíam furiosos, ora rindo histericamente. Essa incompreensão era, na verdade, o próprio objetivo da performance.
Ao transformar a linguagem em ruído, a poesia simultânea expressava a desordem do mundo moderno e a dificuldade de comunicação em uma sociedade atravessada por conflitos. Além de negar o sentido, ela encenava o colapso da própria ideia de entendimento, reiterando o caráter provocador e radical da arte dadaísta.
A presença feminina: Emmy Hennings e Sophie Taeuber
Embora muitas vezes esquecidas, as mulheres tiveram papel fundamental na construção da performance dadaísta. No Cabaret Voltaire, suas atuações ampliaram os limites da arte justamente pelo fato de explorar a voz e o corpo de maneira radical e disruptiva.
Emmy Hennings, cofundadora do espaço, apresentava canções populares e operetas de forma distorcida, criando um clima de estranhamento e decadência. Suas performances, por vezes associadas a estados alterados de consciência, tensionavam a ideia de entretenimento e introduziam uma crítica social implícita, marcada pelo desconforto e pela instabilidade.
Já Sophie Taeuber levava essa ruptura para o campo corporal. Utilizando máscaras geométricas e figurinos abstratos, ela realizava movimentos rígidos, mecânicos, que negavam completamente a leveza e a harmonia do balé clássico, por exemplo. Sua dança, portanto, transformava o corpo em uma forma viva de antiarte.
Esse espírito de ruptura também se manifestava na relação com o público. Diferente do teatro tradicional, em que a plateia permanece passiva e silenciosa, as performances dadaístas eram construídas para provocar reações intensas, para irritar. Gritos, vaias, xingamentos e até objetos lançados em direção ao palco faziam parte da experiência.
Nesse sentido, a obra não se encerrava no artista, mas se completava no confronto com a plateia. Essa lógica antecipa o que, décadas depois, ficaria conhecido como “Happening”, em que a arte acontece no encontro — muitas vezes tenso e caótico — entre quem performa e quem assiste.
A performance dadaísta e sua conexão com a Semana de 22 no Brasil
A Semana de Arte Moderna de 1922 oferece um paralelo interessante com as práticas dadaístas. Durante o evento, no Teatro Municipal de São Paulo, a leitura do famoso poema Os Sapos, realizada por Ronald de Carvalho, provocou uma reação acalorada da plateia.
Entre vaias, urros e até imitações de sons de animais, o público transformou a apresentação em um verdadeiro tumulto. Ainda que involuntária, essa situação pode ser entendida como uma performance dadaísta, em que o escândalo e a ruptura com as expectativas se tornam centrais.
Como no Cabaret Voltaire, a obra não se limita ao que está no palco, mas se completa na reação do público. O choque, nesse caso, não é um efeito colateral, é parte essencial da experiência artística.
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