O século XVIII trouxe consigo uma profunda crise filosófica. A filosofia moderna estava dividida entre o racionalismo, que confiava na razão como fonte de verdades universais, e o empirismo, que reduzia o conhecimento à experiência sensível. Esse conflito de ideias dicotômicas colocava em risco a própria ideia de ciência.
Nesse contexto surge Immanuel Kant, o pensador responsável por reorganizar as bases da filosofia moderna. Impactado pelo ceticismo de David Hume, que mostrou que a experiência não garante necessidade, Kant propõe a chamada revolução copernicana na filosofia.
Sua tese central mostra que não é o sujeito que se molda passivamente ao objeto, e sim que o objeto só pode ser conhecido quando organizado pelas estruturas a priori da mente humana. Veja mais sobre o assunto com o artigo do EV a seguir.
Navegue pelo conteúdo
A teoria do conhecimento: os limites do saber
As ideias de Kant surgem como resposta direta ao conflito entre o racionalismo e o empirismo. Enquanto os racionalistas acreditavam que a razão poderia alcançar verdades absolutas por si mesma, os empiristas afirmavam que todo conhecimento deriva da experiência sensível.
O ceticismo de Hume levou essa posição ao extremo, ameaçando a validade da ciência ao negar a necessidade das leis naturais.
Na obra Crítica da Razão Pura, Kant investiga as condições e os limites do conhecimento humano. Sua questão central é principalmente: o que podemos conhecer? A resposta envolve uma distinção fundamental entre a realidade e a forma como ela se apresenta ao sujeito.
Fenômeno e númeno
Kant afirma que jamais temos acesso direto à realidade em si mesma. Todo conhecimento humano está condicionado pelas estruturas da mente. Aquilo que conhecemos é sempre o mundo tal como aparece para nós.
O fenômeno é a realidade tal como é organizada pelas faculdades cognitivas do sujeito. Já o númeno, ou coisa em si, corresponde à realidade independente da percepção humana. O númeno existe, mas é incognoscível, pois não podemos ultrapassar os limites da experiência possível.
Essa distinção impõe um limite definitivo à razão. A ciência, portanto, não descreve o mundo em si mesmo, mas o mundo tal como ele aparece dentro das condições do conhecimento humano.
As estruturas a priori do conhecimento
Para Kant, a mente não é uma folha em branco. Ela possui estruturas anteriores à experiência, chamadas de formas a priori. Tais estruturas tornam possível qualquer conhecimento.
As formas da sensibilidade — espaço e tempo — não são propriedades das coisas, mas estruturas a priori pelas quais organizamos nossas percepções. Não percebemos os objetos simplesmente no espaço e no tempo; é o sujeito que projeta essas formas para ordenar a experiência.
Já o entendimento atua por meio das categorias, como causalidade e substância, que conferem unidade e sentido aos dados sensíveis. Sem essas categorias, a experiência seria apenas um fluxo caótico de sensações. Conhecer, portanto, é um processo ativo de organização racional da experiência.
O grande desafio de Kant era explicar como a ciência moderna poderia ser universal e necessária. As leis científicas não poderiam ser apenas generalizações empíricas nem verdades puramente lógicas.
Para resolver esse problema, ele formulou o conceito de juízo sintético a priori. Ele é sintético porque amplia o conhecimento e a priori porque não depende da experiência para ser validado.
A ciência resulta da combinação entre dados empíricos e estruturas racionais. A experiência fornece o conteúdo, enquanto a razão impõe a forma. Assim, Kant reconcilia empirismo e racionalismo em um novo modelo epistemológico.
A consequência dessa posição é o fim da metafísica tradicional. Deus, a alma e a origem absoluta do universo não podem ser objetos da ciência. Esses temas são númenros, então ultrapassam a experiência possível.
A ética kantiana: autonomia, dever e dignidade
Se na teoria do conhecimento Kant limita a razão, na ética ele a liberta. Em obras como Crítica da Razão Prática e Fundamentação da Metafísica dos Costumes, o filósofo busca uma moral baseada exclusivamente na razão.
Para ele, a moralidade não depende da religião, das consequências ou das emoções. Ela deve ser universal e válida para todos os seres racionais. Deste modo, o valor moral de uma ação não está em seus efeitos, mas na intenção que a motiva.
Uma ação só possui valor moral quando é praticada por dever, isto é, quando é motivada pelo respeito à lei moral. Já a ação conforme o dever ocorre por interesse, inclinação ou medo das consequências. Embora possa coincidir com o que é correto, apenas a ação por dever possui valor moral verdadeiro.
Essa concepção rompe com éticas fundadas na felicidade ou na utilidade. O foco da moralidade deixa de ser o resultado da ação e passa a ser a intenção racional que a orienta. Assim, o critério moral se encontra na racionalidade da vontade.
Kant afirma que a única coisa boa sem restrições é a vontade boa. Talentos, virtudes naturais e bens materiais não possuem valor moral absoluto, pois podem ser utilizados tanto para o bem quanto para o mal.
A vontade que age por dever é boa em si mesma. Como seu valor não depende do sucesso ou do fracasso da ação, a moralidade não pode ser condicionada aos resultados obtidos.
O imperativo categórico e a moral moderna
A lei moral expressa por Kant por meio do imperativo categórico, é um mandamento incondicional válido para todos os seres racionais. Sua primeira formulação, a da universalização, afirma que se deve agir apenas segundo máximas que possam valer como lei universal. Antes de agir, o indivíduo deve perguntar se aceitaria que todos agissem da mesma forma.
Se a ação não puder ser universalizada sem contradição, ela é moralmente inválida. Nesse caso, a própria razão julga a legitimidade do ato. Assim, a racionalidade torna-se o critério fundamental da moral.
A segunda formulação, a da humanidade, determina que a humanidade seja sempre tratada como um fim em si mesma, nunca apenas como um meio. Nenhum ser humano pode ser instrumentalizado. Essa ideia fundamenta a dignidade humana e os direitos humanos modernos.
Práticas como escravidão, exploração e mentira são, portanto, moralmente inadmissíveis. Elas violam o princípio do respeito à humanidade. Ao reduzir pessoas a objetos, negam seu valor moral intrínseco.
Filosofia política: esclarecimento, razão e paz
Kant estende sua reflexão moral ao campo político ao definir, em O que é o Esclarecimento?, colocando o Iluminismo como a saída da menoridade intelectual. A menoridade ocorre quando o indivíduo não ousa pensar por conta própria. O esclarecimento exige coragem para usar a razão sem tutela externa.
Nesse contexto, o pensador distingue o uso público e o uso privado da razão. O uso público deve ser livre, permitindo a crítica às leis, aos governos e às instituições. Já o uso privado refere-se ao cumprimento de funções sociais.
O progresso, segundo Kant, ocorre quando há obediência prática às normas, mas liberdade intelectual para questioná-las. Essa combinação preserva a ordem social sem sufocar a autonomia racional. Assim, a crítica serve para aperfeiçoar a política.
Em À Paz Perpétua, Kant propõe que a paz seja uma condição jurídica estável, e não apenas a ausência temporária de guerra. A paz deve ser institucionalizada por meio do direito.
A base do debate e o pensamento kantiano
Immanuel Kant com o criticismo redefine as possibilidades da razão, influenciando decisivamente o idealismo alemão, o neokantismo, a fenomenologia, a ética contemporânea e correntes como o existencialismo. A partir dele, grande parte da filosofia passa a dialogar com suas teses.
No campo teórico e moral, o ser humano como legislador da natureza no conhecimento e de si mesmo na moral. A autonomia da razão torna-se o centro da modernidade filosófica. Conhecer e agir moralmente passam a depender da atividade racional do sujeito.
Sua ética não está isenta de críticas. Muitos pensadores apontam sua rigidez, sobretudo por desconsiderar as consequências das ações e as particularidades das situações.
Ainda assim, a concepção kantiana de dignidade humana como valor absoluto permanece como uma de suas maiores contribuições. Ao afirmar que todo ser humano deve ser tratado sempre como um fim em si mesmo, ele fornece um fundamento filosófico duradouro para os direitos humanos e para a ética da civilização moderna.
Estude com a Coruja para suas provas!
Aqui no EV temos os conteúdos completos sobre o que mais aparece nos vestibulares, você pode escolher o pacote que melhor atende suas demandas para o curso que deseja passar. Dessa forma, você prioriza as áreas de estudo que mais precisa focar para fazer o curso dos seus sonhos.
Clique no banner para saber mais!



